Catarina Parr (Alicia Vikander), a sexta esposa de Henrique VIII de Inglaterra (Jude Law), é apresentada como uma rainha regente enquanto o rei parte para uma campanha no estrangeiro. Durante a sua ausência, Catarina administra a corte, mas o retorno de Henrique, mais doente e paranoico, transforma o ambiente num campo de batalha emocional e político. A rainha luta para sobreviver e para preservar s sua voz no meio do caos que envolve a corte Tudor.
Proposta Feminista e Contradições Narrativas
O filme inicia com uma declaração incisiva: “History tells us a few things, mostly about men and war” (A história conta-nos algumas coisas, principalmente sobre homens e guerras). Essa frase é seguida por um monólogo feminista que coloca Catarina como uma figura esperançosa, determinada a mudar a mentalidade do tirano Henrique. Apesar disso, o enredo não consegue sustentar esta perspetiva ao longo de duas horas.

O encerramento, com Catarina a narrar sobre o reinado de Elizabeth I – “defined by neither men nor war” (definido nem por homens nem por guerras) – reforça a intenção de oferecer uma perspetiva feminista. No entanto, esta afirmação parece contraditória, dado que a narrativa não oferece espaço suficiente para desenvolver Catarina como protagonista. A personagem, ao invés de ser uma força central, é engolida pela presença avassaladora de Henrique, reduzindo o seu impacto no enredo.
O Papel de Henrique VIII e a Familiaridade da História
A caracterização de Henrique VIII, interpretado por Jude Law, destaca a sua insanidade e violência, características já amplamente exploradas em outras obras. As suas ações, embora brutais, não são especificamente enquadradas como machistas no filme. Ele é retratado como um déspota descontrolado, um homem que matou várias das suas esposas e também numerosos aliados e inimigos homens.
Esse enfoque genérico no caráter tirânico do rei prejudica a proposta de singularizar a luta de Catarina como uma mulher enfrentando a opressão patriarcal. Para espectadores familiarizados com a história de Henrique VIII, o filme não oferece novos ângulos sobre a sua personalidade, nem explora de maneira significativa a resistência de Catarina. A expectativa era que o argumento conduzisse a audiência através do olhar da protagonista, mas isso não acontece de forma satisfatória.
Atuações e Realização
O elenco de O Jogo da Rainha é indiscutivelmente talentoso. Alicia Vikander oferece uma interpretação delicada e contida, enquanto Jude Law cria uma presença marcante e aterradora como Henrique. Os desempenhos secundários, de nomes como Erin Doherty, Sam Riley e Junia Rees, são igualmente sólidos e ajudam a construir a atmosfera da corte Tudor.

A realização de Karim Aïnouz, na sua estreia em língua inglesa, demonstra competência técnica e um apurado senso visual. As cenas são bem compostas, e o uso dos espaços da corte Tudor é particularmente eficaz. Contudo, é evidente que o argumento limitou as escolhas criativas do realizador, impedindo uma abordagem narrativa mais ousada. Apesar disso, o trabalho da equipa técnica – incluindo design de produção, figurino, maquilhagem e direcção de arte – é notável.
Duração e Ritmo
Um dos maiores problemas do filme é a sua duração. As “exageradas duas horas” tornam-se um fardo para a narrativa, que parece arrastar-se em momentos cruciais. Um corte mais conciso poderia ter dado mais dinamismo ao enredo e ajudado a reforçar a mensagem feminista que o filme tenta transmitir.
O Jogo da Rainha apresenta-se como um drama histórico feminista, mas não consegue sustentar essa promessa. Embora tecnicamente impecável e com um elenco de destaque, a narrativa confusa e a falta de foco na protagonista enfraquecem o impacto da obra. O filme deixa a sensação de ser uma produção visualmente impressionante, mas desprovida de substância emocional e narrativa.