O Verdadeiro Herói: Como personagens de quatro patas conquistaram a literatura e os nossos corações

No Dia Internacional do Cão, homenageamos Argos, Hachikō e outras personagens caninas da literatura que nos ensinam lealdade, memória e o verdadeiro valor de envelhecer.
blank
Ilustração de Pedro Roberto

Este artigo de opinião vai ser um dos mais sentimentais que vou ter o prazer de escrever. Visto o dia 29 de Agosto ser o Dia Internacional do Cão, decidi que fazia todo o sentido homenagear algumas das personagens de quatro patas mais marcantes do universo literário e o seu papel na compreensão do mundo e da empatia humana.

Podemos começar por uma das primeiras personagens de quatro patas na literatura que nos ensina o verdadeiro significado da palavra “lealdade”: Argos, o fiel cão de Ulisses em “A Odisseia”, de Homero (c. século VIII a.C.) e agora também um filme do Cristopher Nolan (The Odyssey, 2026). Quando Ulisses parte para a guerra e enfrenta anos de aventuras, nunca poderia imaginar que o seu cão de caça se tornaria o símbolo máximo da fidelidade. Durante vinte anos, Argos envelhece, esperando pelo seu amo, acreditando no seu regresso, quando todos os outros já o tinham esquecido.

A velhice surge aqui mais do que uma parte natural da sua história, mas sim como um factor que representa a luta contra o tempo, a esperança contra o esquecimento, tornando essa ligação ainda mais poderosa. Debilitado, Argos é o único capaz de reconhecer Ulisses quando este regressa a Ítaca disfarçado. Um simples gesto, como um olhar e um abanar de cauda, revela uma memória e um amor que resistiram a tudo. Argos não é apenas um cão na literatura: é uma representação da lealdade absoluta, da importância da memória e da ideia de que algumas ligações permanecem intocáveis, por mais que o tempo as tente apagar.

Mas será que existem, na vida real, companheiros de quatro patas capazes de uma lealdade semelhante à de Argos? Ou terá Homero criado este cão como uma personagem simbólica para mostrar que, por vezes, os animais conseguem representar valores que os próprios humanos esquecem?

A resposta parece surgir na história de Hachikō (1923-1935), o famoso cão Akita japonês que esperou durante anos pelo regresso do seu dono, o professor Hidesaburō Ueno, mesmo depois da sua morte. A sua história foi publicada no jornal japonês “Asahi Shimbun” em 1932, tornando-se um símbolo nacional de lealdade, mais tarde adaptado ao cinema em “Hachikō Monogatari” (1987) e “Hachi: A Dog’s Tale” (2009), não esquecendo das inumeras adaptações literárias como: “Hachiko: The True Story of a Loyal Dog” (Pamela S. Turner e Yan Nascimbene, 2004).

Tal como Argos, Hachikō mostra-nos que a passagem do tempo não diminui os laços criados pelo amor. Pelo contrário, a velhice torna-se a prova da sua dedicação: cada ano de espera transforma-se num testemunho de memória, fidelidade e da capacidade de amar para além do corpo fisico. No fundo podemos debater se Hachikō foi apenas um cão que esperou grande parte da sua vida pelo seu amo, sem perceber que ele tinha morrido ou se foi um ser muito mais humano que passou a sua vida amando e alimentando as suas memórias de um passado onde ele se lembra de ter sido feliz.

Ler uma história que explora o envelhecimento de uma personagem de quatro patas permite-nos refletir sobre temas essenciais como o amor, o companheirismo, a memória e a empatia. Estes cães não são apenas personagens; tornam-se pontes emocionais que nos mostram que envelhecer tem ou pode ter um significado muito maior do que apenas ganhar rugas no corpo.

Mas que impacto podem estes heróis caninos ter na vida de uma criança? Que lições terão os cães mais velhos para ensinar aos mais novos?

Em 2020, Martha Brockenbroogh com ajuda do ilustrador Gabriel Alborozo, criou o fantástico livro infantil “This Old Dog”. Esta história maravilhosa observa um cão senior que se apercebe que já não consegue acompanhar a rapidez do mundo. Caminha mais devagar, precisa de mais tempo para fazer as coisas, dói-lhe o corpo e está sempre cansado. Porém o mundo dele muda, com a chegada de uma criança à familia. Enquanto os pais vivem acelerados e acompanham o ritmo com que o mundo se mexe, este cãozinho encontra companheirismo e felicidade na pequena criança que tal como ele, tambem precisa do seu tempo, para caminhar, cheirar, e apreciar os pequenos momentos. No fundo este livro ajuda a perceber que além do cão e da criança viverem em duas fases opostas das suas vidas, os seus ritmos encontram-se, tornando a sua amizade e amor pelo mundo numa verdadeira lição de vida. Este livro tem como objectivo combater o idadismo, falando no papel fundamental dos mais velhos na vida dos mais pequenos. Mais uma vez a velhice é representada como uma ideia de amor, dedicação e valorização, lembrando-nos que de vez enquanto é importante pararmos e apreciarmos as pequenas coisas.

Não posso terminar este artigo de opinião sem deixar de referir outras menções honrosas que deram vida a personagens caninas (umas fictícias, outras reais) que ainda hoje abraçamos com carinho e até com uma lágrima no olho. Um grande obrigada ao labrador mais famoso do mundo, “Marley & Me” (John Grogan, 2005), por me fazer valorizar todas as etapas da vida dos meus animais de estimação e guardar com carinho as memórias das traquinices que me deram dores de cabeça. “A Dog’s Purpose” (W. Bruce Cameron, 2010), por me dar esperança de que havemos de nos reencontrar com quem mais amamos noutra vida. “My Old Dog: Rescued Pets with Remarkable Second Acts” (Laura T. Coffey, Neko Case e Lori Fusaro, 2015), por mostrar que até os mais velhos merecem uma nova família, carinho e amor. E vou terminar com outro livro infantil, mais antigo, “The Old Dog” (Charlotte Zolotow, James E. Ransome, 1972), por mostrar, de uma maneira tão bonita, como a morte faz parte da vida e que, mesmo depois dela, é possível continuar a viver e a amar outros, sem nunca esquecer aqueles que já fizeram parte da nossa vida.

Este artigo é para todos os “Bons Meninos” que existem no mundo e que lutam, sofrem e mesmo assim amam e experienciam a vida de uma maneira que muito sinceramente acredito que nós humanos nunca seremos capazes de o fazer.

Picture of Valérie Agostinho
Valérie Agostinho
Designer gráfica especializada em design editorial, com mestrado em Práticas Tipográficas e Editoriais Contemporâneas, com grande interesse em investigação relacionada com a terceira idade e o seu empoderamento na literatura. Adoro criar projetos literários e fanzines.

Colaboraram neste artigo

PUBLICIDADE

Últimos artigos

PUBLICIDADE

Achamos que também podes gostar disto

PUBLICIDADE