Oblivion Song – Música para os meus olhos!
Publicado a 09 Set, 2022

Eu sou um daqueles seres que, como tantos outros, gosta de saber com o que contar, especialmente no que toca a grandes arcos narrativos. Ou estão à espera que vá dedicar anos da minha vida a uma história e personagens para depois alguém puxar a ficha e não ter conclusão alguma? Já não tenho idade para essas aventuras! E saber que algo já tem uma data final, sem ainda sequer ter sido lançado um único vislumbre do que aí vem deu-me, de certa forma, a confiança necessária para receber de braços abertos Oblivion Song.

Aquilo com que não estava a contar, ou que me deixava a cada virar de página mais intrigado com esta decisão tão definitiva, era o quão bom este universo criado por Robert Kirkman era e em como não houve, aparente, vontade em oferecer ao leitor mais a que se agarrar. Ao fim e ao cabo, foi ele o responsável por The Walking Dead, pelo bom e mau que isso nos trouxe.

Mas o que nos conta este Oblivion Song? Nesta nova história vamos seguir Nathan e Ed, dois irmãos que se viram afastados não só pelas circunstâncias da vida como por um incidente que, num piscar de olhos, trocou parte de Filadélfia por um novo mundo alternativo, e vice-versa. Habitantes, edifícios, carros, toda uma vasta área trocou de lugar com este novo planeta a que chamam de Oblivion. Nathan, um cientista que ajudou a criar a tecnologia que levou ao incidente, passa a assumir a responsabilidade de saltar entre mundos e resgatar todos aqueles que encontre e ainda estejam presos nesta outra realidade. Porém, a sua tarefa, que já dura há dez anos, é movida por mais do que puro altruísmo: ele quer encontrar a todo o custo Ed, que não vê desde que se chatearam, bem antes do momento em que houve a troca.

Por si só, esta é uma premissa que tem todos os elementos chave para funcionar. É bastante focada no lado humano e daquilo que algo maior que todos nós, pode fazer a uma relação tão simples quanto a de dois irmãos. E isso acaba por ser o que move tudo em Oblivion Song. Ainda que exista muito mais a acontecer, eles são os dois pilares que suportam tudo o resto, eles são o motivo pelo qual continuamos a virar a página. Isto só acontece porque Kirkman tornou-se rapidamente no mestre em escrever personagens incrivelmente ricos e verosímeis.

Há uma necessidade real em querer saber mais, em ver o que mais há para descobrir em Oblivion, em torcer para que Nathan seja bem-sucedido. Ao mesmo tempo, há um especial rejubilo em ver acontecer sempre mais um estranho desenvolvimento que nos deixa de boca aberta. Principalmente porque este é um mundo completamente novo. Há novas regras, novas aventuras, o desconhecido incita-nos os sentidos. Não é apenas mais um conjunto de situações e adversidades com as quais já estamos fartos de lidar em outras publicações.

Nada contra, bem pelo contrário, mas é uma sensação diferente descobrir algo totalmente fora da nossa zona de conforto, e estar a adorar desbravar esse caminho, do que saber exatamente que tipos de perigo vamos encontrar num ambiente que já nos é familiar. Em Oblivion Song nada é familiar!

E isso também se deve muito à incrível arte de Lorenzo de Felici. Apesar de já ter trabalhado em várias publicações maioritariamente como colorista, é aqui que mostra tudo aquilo que é capaz. Não só foi também um dos criadores desta história como foi o artista principal da mesma. E o seu estilo consegue dar um bom ritmo a painéis que de outra forma poderiam ser facilmente esquecíveis e, além disso, dá a energia necessária quando a sequência assim o pede. Há um conflito constante entre querer folhear rapidamente para ver o que vem a seguir e o querer apreciar por mais um segundo aquilo que ele desenhou.

Como o número de publicações já estava definido desde início, também ajudou a que o ritmo de leitura fosse ainda melhor. Não houve palha e cada nova informação a que tinha acesso, avançava efetivamente com a história. Isso também deixa pouco espaço para desenvolvimento mais a fundo, o que por vezes senti alguma falta. Ainda assim, prefiro apenas a sugestão a algo, e saber que isso tem algum efeito nos envolvidos, do que mais conteúdo sem desenvolvimento da trama principal.

Sem querer estar pisar uma mina que vá rebentar demasiado com aquilo que é a história, não me consigo recordar da última vez em que um universo totalmente novo foi criado em parceria de forma tão hábil e cuidada. Não é apenas o diálogo que nos conta algo como o próprio desenho acrescenta à narrativa, sem ser uma mera ilustração do que é proferido pelos personagens. A única coisa menos boa que posso apontar a Oblivion Song neste aspeto é, estranhamente, o ritmo a que se desenvolve nas primeiras publicações. É certo que é preciso dar espaço para a informação respirar e assentar no leitor, estamos perante algo novo e que temos de interiorizar as regras pelas quais tudo se move. Ainda assim, e mesmo que a leitura seja bastante fluída, senti que as primeiras cinco publicações levaram o seu tempo até largarem a primeira bomba.

A partir daí, a viagem torna-se vertiginosa e intensa. Não há como não devorar tudo de uma só assentada e não ficar surpreendido com o desenrolar dos acontecimentos. Além disso, tudo transpira a cinematográfico nesta produção, há um constante crescendo que se faz sentir narrativa e visualmente e nos causam uma sensação de emergência. Algo que começa por ser mais restrito, depressa se expande e atinge outra escala que não se fazia antever inicialmente.

Esta é sem dúvida uma das grandes surpresas dos últimos anos, que só agora chegou ao fim, mas ainda a meio caminho já tinha feito o seu impacto em Hollywood e está a caminho do grande ecrã.

  • Positivo
  • Narrativa principal bastante bem escrita e cheia de surpresas
  • Ilustrações perfeitas e adicionam ao que se está a ler
  • Negativo
  • Primeiro volume demora até aquecer
Escrito por:
Marco Almeida
Viciado em tudo o que conte uma boa história, desde cinema a videojogos, séries a banda desenhada, e até um bom jogo de tabuleiro. Tudo é motivo para me atirar de cabeça a universos alternativos. E já agora, o Scorsese está errado; o MCU é o pináculo da sétima arte! Quem respira, concorda!