Olhar o Sol – Quando as paredes falam

Quatro mulheres, uma casa e décadas de silêncio acumulado. Olhar o Sol é cinema sensorial alemão que transforma o trauma em espaço habitável e obriga o espectador a escutar aquilo que sempre ficou por dizer.
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Uma quinta no norte da Alemanha. Quatro mulheres – Alma, Erika, Angelika e Lenka – separadas por décadas, mas unidas pelo trauma, partilham as suas confissões apenas às paredes, que insistem em guardar segredo.

Olhar o Sol” foi uma experiência que rapidamente me conseguiu remeter, enquanto espectador, para obras como “Inventário de Sonhos”, o acontecimento literário do ano passado, escrito pela fantástica Chimamanda Ngozi Adichie, no sentido em que somos expostos a este relato intenso e gráfico da misoginia, da complexidade de relações entre pais e filhos e da natureza cíclica dos padrões históricos que assombram quatro gerações diferentes que têm em comum o facto de viverem na mesma quinta. Quinta essa onde a narração será tão melancólica e nos prenderá constantemente dentro de tal ambiente tão tóxico, que quase nos força a compreender a esperança distorcida das mulheres que ali viveram, cuja forma como fantasiam o suicídio e a fuga reflete os anos de violência e abusos.

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Mentiria se dissesse que as duas horas e meia de filme não se sentem, até porque existem narrativas que acabam por ficar esquecidas visando promover mais tempo de ecrã para as principais histórias, que considero serem as de Alma e Angelika. No entanto, creio que Mascha Schilinski atingiu exatamente o resultado a que se propôs: um trabalho extremamente meticuloso de cinema sensorial, que conta com a inteligência do público e não se preocupa em ser extremamente explicito, sendo o facto que mais me agradou, justamente por contrastar com esta corrente moderna de cinema feito, aparentemente, para intelectos incompetentes, optando por nos colocar como “deuses”, navegando de história em história através de relatos que ousam quebrar a quarta parede.

A fotografia de Fabian Gamper é outro trunfo claro, optando por proporções diferentes e sem ter medo de abusar no grão da imagem, que nos remete diretamente para um tempo distante, enganando-me durante toda a obra, pois jurava que havia sido gravada em película. O trabalho de som é muito bom, usando muitas vezes o silêncio a seu favor.

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Para concluir, o trabalho das quatro protagonistas – Lena Urzendowsky, Hanna Heckt, Lea Drinda e Laeni Geiseler – é feito com um cuidado extremo. As performances pareceram-me todas muito honestas e comedidas e talvez tenham sido o maior motivo para eu não perder o interesse nesta história, uma vez que o primeiro ato é realmente lento, propondo-se a explorar a casa em si, como se esta fosse o personagem central da história para, só mais tarde, se permitir ramificar e dar-nos a conhecer as quatro raparigas.

No final, Schilinski atinge esta ideia de “casa assombrada”, onde os fantasmas digitais são trocados pelo peso da vivência. O peso das histórias. E faz aquilo que a própria obra questiona, dando voz às paredes. “Se estas paredes falassem…”, aqui falam. Experiência interessante proveniente do cinema alemão.

Olhar o Sol

Sound of Falling
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Lançamento: 2026-02-19 Ano: 2025
Realizador: Argumento: ,
Distribuição:
Estúdio:
7.5
Picture of Tomás Sena
Tomás Sena
Todos me chamam Tommy, “Tomás Sena” é só para parecer mais profissional. Apaixonado por cinema desde que me conheço por gente, gosto de escrever e dar a conhecer aos outros o que a sétima arte me dá a conhecer a mim. O rapaz que pegou num livro, com 9 anos, na biblioteca da escola, devido ao simples facto da sua capa ser apelativa, e esse simples gesto mudou para sempre a sua vida. O livro, o terceiro da, ainda hoje minha favorita, saga Harry Potter, moldou o rapaz, tornando-o num verdadeiro geek, que hoje escreve do seu quarto cheio de Pop Figures como testemunhas. Sempre pronto para o próximo livro, filme, série… para a próxima história que me fará mergulhar num novo universo e sempre decidido a defender a tese de que Pulp Fiction é o melhor filme já feito.

Colaboraram neste artigo

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