Orbitals tem a alma de um anime clássico, mas falta-lhe o jogo

Orbitals recria a estética da animação japonesa dos anos 80 e 90 com mestria, mas entrega uma jogabilidade cooperativa repetitiva que fica muito aquém de It Takes Two ou Split Fiction.

Já foram várias as vezes que um videojogo me partiu o coração. Normalmente por levarem a história por algum caminho inesperado (ou por vezes, esperado mas que ainda assim difícil de digerir). Mas sempre aconteceu por bons motivos, os motivos inicialmente planeados pelo estúdio responsável pelo jogo. Por outro lado, em Orbitals, senti que foi mais uma daquelas relações que com o tempo começa a perder a magia por percebermos que nem tudo é o que parece…

Acho que todos aqueles que tiveram algum interesse em Orbitals foi, inicialmente, pela identidade visual bem vincada das animações dos anos 80 e 90. Para nós portugueses, isso traduziu-se bastante em Dragon Ball, Sailor Moon e Neon Genesis Evangelion, ainda que a nível de traço esteja mais próximo de uma Heidi, também bastante relevante no nosso mercado, ou ainda Os Cavaleiros do Zodíaco, Doraemon ou Astro Boy, do que propriamente a animação japonesa mais tipicamente conhecida do grande público. 

O interesse era tanto que genuinamente pensei que este título ia apanhar muito boa gente de surpresa. E não posso dizer que não o tenha conseguido. A primeira hora de Orbitals é genuinamente fascinante. A forma como vão saltando entre animação tradicional e animação 3D sem que se perca propriamente a identidade, é louvável. Mesmo durante o gameplay, há certos pormenores nos personagens e cenários que me faziam questionar se era um elemento 3D ou desenhado, e se calhar até é desenhado, mas é realmente um misto de elementos que tornam em realidade estar a interagir e a viver dentro de uma animação japonesa de outros tempos.

Foi pena que tenha de ter trocado as vozes para inglês, já que eles decidem desatar a falar incessantemente durante as atividades que temos de completar, o que dificulta, e muito, acompanhar a história, mas posso dizer que tanto em japonês como inglês, estava tudo muito bem conseguido. Melhor só se existisse uma dobragem em português europeu, para sentir a pulsar aquela nostalgia!

Os primeiros passos até apresentam algum desafio, nada de muito exigente, como que a ambientar os jogadores para o que aí vem. Sim, jogadores, porque este é um daqueles títulos que é necessário jogar com mais alguém, seja ao nosso lado no sofá, seja online. Não há forma de jogar a solo, bem ao estilo de It Takes Two ou Split Fiction, para mencionar dois títulos recentes que também pegaram nessa abordagem. 

Segurar plataformas para o nosso companheiro passar, abrir portas, saltar em plataformas, pressionar botões ao mesmo tempo, limpar ou abrir caminho para que possam passar sem risco algum, entre outros. É um bom aquecimento para o trabalho em equipa e um bom treino para perceber mecânicas e aplicar futuramente. 

Mas passado uma hora… duas horas… três horas… Percebemos que esse momento futuro, onde o desafio vai finalmente ser apresentado, não está a chegar. Continuamos a empurrar plataformas, limpar o chão ou a desviar coisas para um de nós passar, saltar em plataformas ou carregar num botão ao mesmo tempo, abrimos portas para outro interagir, é tudo algo estranhamente idêntico e repetitivo. 

Mesmo a divisão de tarefas na nossa nave, em que um controla o veículo e o outro dispara as armas, é a grande ferramenta para derrotar eventuais inimigos finais ou progredir em certas sequências algo lineares e pouco desafiantes e acaba por não apresentar ser grande desafio.

Ao contrário das experiências vividas em It Takes Two ou Split Fiction, em que cada personagem realmente tinha uma experiência de jogo completa, em Orbitals fica a sensação que foi tudo diluído para haver conteúdo para ter dois personagens. Houve um momento que até obrigam um jogador a sair dos controlos da nave para que o outro fique sozinho a navegar, e isto aproximou-se mais da experiência que esperava encontrar aqui, mas foi sol de pouca dura. 

Não é que queira comparar constantemente Orbitals a um outro jogo qualquer, mas vindo de alguém que também trabalhou nos dois já mencionados, assim como A Way Out, é normal que a comparação seja feita. E neste caso, também o fiz por achar que são as melhores amostras daquilo que deveria ser uma experiência para se jogar a dois.

E descobrir, a cada minuto que passa, que a experiência que vou ter é apenas saltar e dar permissão ao meu parceiro de jogo em avançar no mapa sem grande desafio, foi a primeira vez que me partiram o coração. O jogo que acreditava vir a ser um dos pontos altos deste ano, estava a mostrar-se ser uma experiência demasiado passiva e desinspirada.

A segunda vez que senti o coração partir-se em mil pedaços, e talvez sem grande surpresa, foi ao chegar ao final do jogo e ver todos os arcos narrativos que haviam começado há um par de horas atrás terem a sua conclusão. Pensar em como a coisa termina ainda me faz sentir um aperto na garganta, e mesmo que inicialmente estivesse convencido que este jogo podia ser um marco em 2026, não esperava que a história pudesse ser aquilo que foi. 

Aqui, a inspiração já vai beber da fonte que é o Studio Ghibli, não apenas pela carga emocional final, mas também por toda a estrutura narrativa, e acho que fez um trabalho incrível. É por isso que custa ainda mais perceber que se isto fosse uma série ou filme animado, seria das melhores coisas já feitas dentro do género, e foi algo desaproveitado num videojogo que deixa algo a desejar quando deixamos de assistir para passar a interagir. 

Não é um mau jogo, até é um jogo que se calhar vai ser um bom ponto de entrada num hobby que muitos pais ou irmãos mais velhos tenham e queiram agora incutir aos mais pequenos. É um jogo simples a esse ponto porque não exige muito a nível de coordenação ou atenção, mas para quem queira mais jogo, não o vai encontrar aqui.

Vale a pena pela experiência e pela animação, e para passar um par de horas entretido, porque a duração é consideravelmente curta, mas não fosse pelo sentimento que a narrativa carrega, estávamos provavelmente a ter uma conversa bem diferente.

Orbitals

Lançamento: 2026-09-03 • Ano: 2026
Distribuidora:
Estúdio:
Plataformas:
7
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Marco Almeida
Viciado em tudo o que conte uma boa história, desde cinema a videojogos, séries a banda desenhada, e até um bom jogo de tabuleiro. Tudo é motivo para me atirar de cabeça a universos alternativos. E já agora, o Scorsese está errado; o MCU é o pináculo da sétima arte! Quem respira, concorda!

Colaboraram neste artigo

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