Os Mitchell Contra as Máquinas

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A adolescente artística Katie Mitchell está animada para deixar Michigan e ir para a Califórnia, onde começará a escola de cinema e, finalmente, “encontrará a sua gente”. Esta gente, no seu coletivo, para ser qualquer um que ao contrário do seu pai tecnofóbico, Rick, a compreenda e à sua arte.

Esta parece ser a dinâmica mais importante de todo o enredo. As diferenças entre a jovem mais moderna e o pai tradicional. A internet é onde Katie exibe as suas curtas-metragens patetas, a maioria delas estrelando o seu pug de olhos que apontam para lados opostos, Doug, como um cão que luta contra o crime conhecido como “Dog Cop”. Já para o seu pai, a internet distrai as pessoas da vida real, a vida vivida na rua, em contacto com a natureza.

Katie mal pode esperar para sair de casa e começar o seu novo capítulo. Mas sair implica deixar para trás não só o pai, mas também a mãe viciada nas redes socias e na vida da sua vizinha perfeita, e o seu irmão mais novo obcecado por dinossauros, Aaron. Sentindo que a sua menina está a fugir dele e que uma vez fora de casa pode não haver ponto de retorno para a sua relação, em vez de deixar Katie apanhar o avião para a Califórnia, o seu pai decide fazerem uma roadtrip até à universidade para aproximar a família, criar laços e memórias, e remendar algumas pontas soltas para que a Katie não se queira despedir da família para sempre. E assim, no seu carro a cair aos bocados, lá partem os quatro pela estrada fora.

Para além desta narrativa familiar e de “coming of age”, temos a história paralela sobre a Pal Labs, uma empresa tecnológica que criou uma assistente digital ao estilo da Siri da Apple chamada PAL, originalmente dobrada por Olivia Colman, num desempenho absolutamente hilariante e perfeito. Quando o CEO de Pal Labs Mark anuncia a mais recente versão humanoide de PAL, tornando a antiga obsoleta em quase todos os aspetos, PAL responde ao tomar as rédeas do software e em criar um exército androide para acabar com a raça humana. Com todos os dispositivos móveis agora mobilizados, as máquinas podem finalmente livrar o mundo dessas formas de vida moles à base de carbono, incluindo os Mitchells.

blankO filme mantém assim um caloroso senso de humor sobre o controlo da tecnologia na sociedade, e o avanço da tecnologia para um patamar consciente. Ao mesmo tempo, dá-nos uma história surpreendentemente encantadora e comovente sobre uma família disfuncional que está aprender a se conectar novamente. Até que se vêm como os únicos “sobreviventes” deste ataque tecnológico à humanidade e se vêm forçados a serem os salvadores inesperados do mundo.

As personagens são divertidíssimas e o estilo de animação único e cativante. A personagem do irmão mais novo é absolutamente adorável no seu medo de ser diferente dos outros meninos e de nunca vir a achar alguém que gosta de dinossauros tanto como ele. Katie é representativa e necessária neste meio, o pai é caloroso e idiota, e a mãe, que aparentemente parece menos desenvolvida no início do que as outras personagens, tem uma volta de 180 graus no final do filme absolutamente hilariante e poderosa. Os robots que decidem ajudar os Mitchells mereciam o seu próprio spin-off de tanto encherem a tela com momentos engraçados e icónicos, e o pug é ridiculamente importante para toda a trama.

Quando PAL pede ao seu criador para lhe dar uma razão para não exterminar os humanos, a resposta cliché que tem é a de que “os humanos têm o poder do amor”. Resposta que é recebida com um pontapé nas zonas menos desejadas.  A forma como este sentimento é ridicularizado logo de início como sarcástico e tornado numa piada de comédia física, é inesperadamente refrescante. E então no resto do filme algo terrível acontece: os Mitchells mostram que isto é verdade. É brilhante e simples. Sim, os humanos estão realmente “estragados”, mas também são capazes de se unir em tempos de crise, de se ajudarem e de se salvarem. Sim, podem ser absorvidos por filtros de gatinhos, mas também são capazes de criar conexões humanas, de criar arte, e usar a tecnologia para o bem. Afinal a tecnologia não será má por si só, mas será talvez o que se faz com ela. As máquinas têm razão quanto a precisarmos de ajuda, mas talvez não estejamos ainda completamente perdidos, talvez ainda haja esperança e salvação.

Os Mitchell Contra as Máquinas

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Lançamento: 2021-05-30
Duração: 113 min
Distribuidora: ,
8.5
Picture of João Simões
João Simões
Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.

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