Os Olhos de Tammy Faye – vem Deus mas não vem o marido a pôr o dinheiro ao bolso
Publicado a 18 Fev, 2022

Ou por outras palavras, o amor a Deus é o mais cego de todos…

Em Os Olhos de Tammy Faye, vemos a jovem Tammy (Chandler Head) anseia por ir à igreja em International Falls, Minnesota, onde todos os congregados parecem possuídos por uma força divina, mas o facto da sua mãe (Cherry Jones) ser divorciada é escandaloso, e elas não são bem-vindas. Ainda assim, Tammy esgueira-se e acaba por ir, e tal é a experiência transcendente da religião que tem que culmina a contorcer-se no chão e a falar em línguas, o que com certeza é uma maneira auspiciosa de experimentar pela primeira vez a alegria da missa e, especialmente, de se tornar a imortal Tammy Faye.

Baseado no documentário homônimo de Fenton Bailey e Randy Barbato

Saltamos para 1960, onde Tammy Faye (Jessica Chastain) frequenta a faculdade bíblica onde conhece Jim Bakker (Andrew Garfield) e ambos acabam por se apaixonar e convencem-se de que o seu Deus não quer que sejam pobres. Em 1965, estão casados e a começar a realizar o seu sonho de espalhar a palavra sagrada (e encher os bolsos), através de uma turné de evangelização com Jim a pregar e Tammy Faye a cantar e com os seus espetáculos de marionetes.

Rapidamente a coisa evolui para uma carreira de televangelismo com 20 milhões de espectadores, todos os quais praticamente enviam dinheiro aos Bakkers. Dinheiro esse que eles colocam em contas à parte, quando não o usam para financiar o seu estilo de vida de luxo. Parece que as pessoas estão apaixonadas, hipnotizadas e deslumbradas com os personagens dos Bakkers, e que o seu plano está a ter sucesso.

Retrata a ascensão e a queda de uma socialite evangélica

Aos poucos a sua relação perde relevo na história, ficamos a saber que o casamento começa a dar para o torto, que tiveram filhos, ou assim se assume, e o que passa para primeiro plano são os rumores de disparidades financeiras, dos quais parece que Tammy Faye é meio que deixada de parte. Afinal de contas, ela é a heroína da história, a sua integridade tem de ser mantida, o estabelecer do seu carácter correto é obviamente notório por parte da história, salientando o seu lado mais humano que não condena as pessoas doentes com HIV, naquela altura maioritariamente homossexuais, contrariamente à posição da igreja que ela tanto acredita. Tudo isto ajuda a construir uma personagem cujo  império aos poucos começamos a perceber está destinado a desmoronar sob o peso da sua própria ganância e falibilidade.

Os Olhos de Tammy Faye falha em vários detalhes de narrativa, mas felizmente, Chastain dá uma performance convincente e complexa por baixo de uma caracterização que deixa a desejar. A performance implica que ela foi motivada pelo desejo de atuar, de amar e ser amada e, por extensão, de usar a sua plataforma para o bem. Claro, não deixa de ser cúmplice de todas os crimes do marido e deve assumir alguma responsabilidade pelas suas más condutas, mas sai por cima. Um papel estabelecedor da carreira de Chastain, que a fez ganhar uma nomeação merecedora por parte da Academia. Garfield encontra-a nesse caminho e dá mais uma grande performance que juntamente com o seu retrato de Jonathan Larson em Tick, Tick… Boom! (e obviamente o seu regresso como o fantástico Homem-Aranha), estabelece o ano de 2021 como um dos melhores da sua carreira.

Um dos melhores papéis da história da Jessica Chastain

Os ângulos convencionais do filme fazem com que pareça uma oportunidade perdida, um passeio preguiçoso e estereotipado que se apoia demasiado nos atores carismáticos. O roteiro aborda a crescente influência política de direita numa cena ou outra, colocando-o em desacordo com as tendências culturalmente liberais de Tammy. No fim, Os Olhos de Tammy Faye nada mais do que reitera altos e baixos biográficos já familiares pelo seu valor de entretenimento, e anteriormente abordados num documentário do ano 2000 com o mesmo nome que reformulou, de forma divertida, o legado de uma mulher muitas vezes ridicularizada pela sua imagem e acusada de enganar os seus leais seguidores.

Após uma viagem estereotipada da subida e posterior queda do pedestal, saltamos para os meados dos anos 90, enquanto Tammy Faye vasculha os pedaços restantes de sua vida despedaçada. É um trecho comovente e mais meditativo que mostra Chastain dando talvez uma das suas melhores performances, à medida que os tiques mais afetados de Tammy Faye caem e os danos por baixo se tornam mais visíveis.

Em última análise, a razão para se ver este filme é clara e só uma: Jessica Chastain, embora o resto fique aquém e distraia, ela mantém-nos agarrados ao ecrã até ao fim.

Os Olhos de Tammy Faye
Bom
Realizador:
Duração: 02H06M (126 min)
Distribuição:
Lançamento: 20 de Janeiro de 2022
7
  • Positivo
  • Performance de Jessica Chastain e Andrew Garfield
  • Negativo
  • Caracterização
  • Falha em vários detalhes de narrativa
  • O ritmo do filme
Escrito por:
João Simões
Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.