Com o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, são muitas as pessoas que pensam que esta é uma história recente. Mas o que o filme Palestina 36, de Annemarie Jacir, mostra é que o começo é mais longínquo do que se pensa. O drama retrata os anos de 1936 a 1939, numa Palestina ocupada por Inglaterra. Com os regimes ditatoriais a nascerem na Europa, os judeus migravam para a Palestina, ocupando, no processo, as terras dos nativos. Enquanto isso, as autoridades britânicas planeavam a criação de um estado sionista.
Dicotomia campo/cidade
A obra faz um trabalho genial ao comparar a situação da cidade (Jerusalém) e da aldeia (al-Basma). A cidade, com eletricidade e rádio, era um ponto de encontro para jornalistas, intelectuais, mas também para soldados e membros das autoridades britânicas. Os palestinianos migravam para a cidade à procura de uma renumeração para a família, contudo encontravam horas seguidas de trabalho não pagas, a substituição por trabalhadores judeus e até agressões.

A aldeia ao contrário, no início do filme, era um sítio mais pobre mas de paz. Os campos verdejantes, as oliveiras (símbolo palestiniano) e o algodão foram cenário para um vida pacata, com crianças a brincar. No entanto, estes camponeses acabam por enfrentar o roubo das suas terras e agressões contínuas, acabando com a serenidade.
O ódio que se semeia
O filme é ótimo a mostrar as consequências do ódio e do preconceito. Os palestinianos, vítimas de violência constante, decidem criar uma armada para se defenderem, o que cria a maioria dos momentos tensos e mais agressivos da narrativa.
O trauma geracional da população é retratado de forma sensível e estratégica, para demonstrar como cada personagem lida com a tensão. Ao longo do filme, imagens de danças, festas e cultivos aparecem a preto e branco como algo do passado, mas também como símbolo de esperança no futuro.
Diferenças religiosas
O drama foca-se em duas religiões: islamismo e cristianismo. O filme retrata um padre palestiniano e a sua família, tal como as tradições da religião na Palestina, demonstrando como as diferentes fés socializavam em paz.
O judaísmo é pouco retratado, e, mesmo as personagens judias são figurantes que falam pouco ou nada. Não é explícita a religião dos soldados e das autoridades, apenas se sabe que acreditavam no sionismo e na retirada de terra e de poder aos palestinianos.

Elenco excessional
Apesar de não existir uma personagem principal no filme, a personagem mais destacada é o Yusuf, interpretado pelo ator palestiniano Karim Daoud Anaya. Um rosto familiar no filme é a atriz palestiniana Hiam Abbass, conhecida por entrar na série Succession da HBO.
Do lado britânico, aparecem nomes como Robert Aramayo (conhecido por interpretar o Ned Stark jovem em Game of Thrones), Jeremy Irons (Scar, em Rei Leão) e Liam Cunningham (Sor Davos em Game of Thrones).
O filme é recomendável?
Muito! É uma obra obrigatória para quem quer conhecer a História e entender os acontecimentos do presente. Considero que deviam fazer mais filmes deste tipo noutras décadas.
Qual é o público-alvo?
Todas as pessoas que queiram aprender sobre os acontecimentos referidos. Contudo, é um filme emocionalmente e visualmente forte e não é indicado para crianças.