Tresloucado Peacemaker
A segunda temporada chegou ao meu ecrã de rompante e preciso, desde já, agradecer à DC Studios por, mais uma vez, me permitir estar nos primeiros lugares para assistir a mais uma aventura da DCU. Para já, e durante as próximas linhas, vou explorar os meandros dos primeiros cinco episódios, que são, na realidade, o primeiro arco completo desta temporada. Fica em aberto a forma como a série irá desenvolver a história nos últimos três e que conclusão teremos para Peacemaker e os seus tresloucados amigos. Com toda a sua glória de trazer paz ao mundo da forma mais caótica e imprevisível possível, esta segunda temporada segue exatamente o mesmo rumo da primeira. Por isso, vamos lá explorar estes cinco primeiros episódios e responder à pergunta: será que vale a pena embarcar nesta aventura? E de que forma a série se conecta a tudo?
Quem é Peacemaker?
A DC Studios é agora composta por Peter Safran, responsável pela parte financeira, e por James Gunn — ou Tiago Pistolas, como o apelidamos no podcast Universo Take — que trata da parte criativa. No entanto, Gunn já fazia parte da comitiva da DC há alguns anos. Após uma discussão mais acesa com os responsáveis da Marvel, o realizador avançou para The Suicide Squad, antes de regressar à Marvel para terminar a sua incrível trilogia de Guardians of the Galaxy. Mas é neste novo filme da equipa de vilões mais famosa dos comics que Gunn inicia toda a sua estrutura, que tanto jeito tem vindo a fazer agora. Peacemaker é aqui apresentado com John Cena a dar rosto e corpo à personagem.
Gunn, habituado a levar figuras desconhecidas à ribalta, coloca aqui uma personagem que tinha tudo para correr mal no centro das atenções e, de repente, garante-lhe uma série que acompanha a narrativa do filme. Além disso, e na altura, estava inserida na DCEU, fazendo a ligação devida no fim.
Mas podemos recuar um pouco nesta história? Em 1966, na casa da Charlton Comics — empresa que mais tarde viria a ser adquirida pela DC Comics — surge, na revista Fightin’ 5, um pacificador capaz de fazer tudo para levar a sua avante. Peacemaker é assim introduzido ao mundo exatamente com as características que Gunn utiliza desde o primeiro momento. Voltando às revistas de banda desenhada americana, no momento em que a DC adquiriu os direitos de várias personagens, introduziu-as no seu próprio universo, no entanto, num paralelo à mainstream. Só mais tarde, num dos mais conhecidos crossovers, Crisis on Infinite Earths, é que Christopher Smith chega à mainline da DC. E aqui começa a analogia com toda a história deste personagem em live-action.
Smith confuso
A DCEU funciona aqui como a Charlton Comics, enquanto a DCU é a mainline neste momento. Então só há algo a fazer… colocar tudo dentro de uma misturadora e mexer bem… Vá, não é assim tão confuso, mas, sem dúvida, deixou o Peacemaker à beira da loucura nestes primeiros cinco episódios. Gunn foi claro naquilo que era canon e no que não era. Tudo o que foi feito a partir de Creature Commandos é canon, tudo o que ficou para trás não é, exceto certos eventos quando mencionados nas novas produções. A ação de Peacemaker no passado passa a fazer parte da storyline da DCU, com ligeiros acertos. Aliás, a série começa com um glamoroso “Anteriormente na DCU”, fazendo o resumo necessário dos acontecimentos passados, mas com alterações que me fizeram franzir o sobrolho. Fui mesmo verificar algumas sequências da primeira temporada para perceber se o resumo estava ou não alterado… e estava. Além disso, a série faz um bom trabalho em levar o espectador por vários momentos do passado, utilizando cenas quer da série, quer do filme The Suicide Squad.
Mas por que está Smith confuso? No meio desta embrulhada de universos, Gunn transformou esta série numa tresloucada aventura multiversal, colocando em cima da mesa que a DCU existe, mas que a DCEU também existe no seu próprio espaço. Sim, eu sei que pode parecer confuso, mas a série utiliza estes primeiros cinco episódios para esclarecer esta situação, mesmo sem grande exposição do caso. Claro que acontecimentos anteriores, particularmente o que se passou em Metrópolis, são catalisadores para montar esta segunda temporada. E antes que perguntem: não, não é necessário ver Superman para compreender os acontecimentos desta temporada. Aliás, não precisam de assistir a nada! Como referi antes, a série faz um bom trabalho de se resumir e dar o contexto necessário para que tudo funcione nesta fase.
Esta pode ser uma temporada confusa para alguns, inclusive uma história complicada de contar para os personagens daquele universo, mas eu não estou confuso quando digo que James Gunn soube trabalhar esta temporada na medida certa. Tal como tem feito no mundo dos heróis, este senhor sabe como desenvolver personagens sem fugir ao que elas são no mundo dos comic books.
Fidelidade é boa ou não?
Quando se trata de uma adaptação, há sempre os que defendem que se deve ser totalmente fiel à fonte, outros que preferem uma história única com as mesmas bases, e depois ainda há aqueles que se estão a marimbar, certo? Então, qual destes são vocês? Do meu lado, podem contar com alguém que está entre o que deve ser totalmente fiel, mas com liberdade para adaptar quando necessário. A banda desenhada tem essa particularidade de nos levar por uma viagem de Palavras Ilustradas, e isso transforma a nossa imaginação daquilo que pode ser uma adaptação para imagem em movimento. Se com um livro está tudo na nossa cabeça — desde cenários, guarda-roupa e aspeto das personagens (sim, eu sei que são descritos, mas há sempre uma parte que fica aberta à nossa imaginação) — na banda desenhada isso já está visualmente definido.
Quando adaptamos o género para a animação, esta conexão é ainda mais direta e é necessário, muitas vezes, fazer alterações criativas que permitam ao espectador obter algo diferente, que não teria se fosse uma cópia descarada. Já no live-action, a coisa é um pouco diferente, e muitas vezes é difícil trazer personagens que têm um ar extremamente caricato para uma imagem real. Digam o que disserem, acho que é aqui que James Gunn brilha, conseguindo colocar realismo em algo que, teoricamente, seria muito difícil de tornar credível.
Em Peacemaker é exatamente isso que nos é oferecido. Não só uma história que apresenta detalhes completamente fiéis ao que a banda desenhada mostrou ao longo das últimas décadas, mas também uma narrativa única, expansiva e capaz de nos prender pelo mais ínfimo detalhe. Não só isso, mas a carga emocional é colocada em cima da mesa com uma força que não esperaria. Se a primeira temporada abordou de forma superficial alguns temas mais fortes, aqui são ainda mais pesados de aguentar. Uma história complexa, com muitas linhas a definirem as características desta personagem. Se faltou contar algo desde a génese do personagem, então agora está realmente tudo a ser explorado.
Fugir às fórmulas
Se pela internet se continua a falar de fadiga de super-heróis, eu, por aqui, continuo a achar que há muita falta de memória. Os filmes e séries de super-heróis estão numa fase muito interessante. Depois de vários anos assentes numa estrutura sem identidade e com demasiados conteúdos em formato fast food, estamos finalmente perante projetos com identidades próprias e muito próximos daquilo que espero de um produto baseado em banda desenhada. Há tanto para oferecer… histórias profundas, assuntos relevantes, divertimento, exagero, mundos e aventuras que desafiam a realidade… Como é que, com tantos anos de heróis em revistas, só conseguimos cair numa fórmula repetitiva?
Entre os pingos da chuva, alguns destacam-se por serem excelentes obras ou por fugirem ao padrão a que tanto estamos habituados. Por isso mesmo é que não acho que estejamos perante fadiga dos filmes de super-heróis… Acho, sim, que o público está cansado de fórmulas repetidas. É preciso quebrar barreiras, chocar o público de formas nunca antes vistas e transformar estas histórias tão ricas em aventuras fantásticas, seja para ver em casa ou no cinema. A nova temporada de Peacemaker arranca com esse espírito. De chocar… sim, houve episódios em que nunca pensei ver o que vi… de nos levar por temas mais profundos, colocando o protagonista numa situação especialmente delicada, mas, no final das contas, sendo aquilo em que se baseia: uma história digna da banda desenhada americana.
A diversão consumiu-me
Se a primeira temporada me divertiu do princípio ao fim, com momentos de pleno entretenimento televisivo, estes primeiros cinco episódios continuaram essa jornada. John Cena parece ter nascido para este papel. O famoso wrestler que, já há alguns anos, dá frutos no meio cinematográfico, ganhou aqui destaque neste papel, onde a sua personalidade parece encaixar na perfeição. Não só conseguiu voltar a encarnar aquela faceta robótica, como também mostrou um lado que parece ter batido no fundo do poço, sem saber como se reerguer. As dinâmicas continuam no ponto e a Eagly decidiu voar bem mais alto desta vez. Do primeiro ao último minuto destes cinco episódios, vivi uma espiral de sentimentos, mas onde a diversão, sem dúvida, reinou.
Um arranque digno, mas, principalmente, um arranque com linhas bem definidas. No passado, no presente e no futuro, Peacemaker parece estar estabelecido para ter o seu espaço nesta nova DCU. Espera-se que o segundo arco desta temporada seja tão gratificante quanto o que foi mostrado até aqui, bem resolvido e sem muitas pontas soltas. Se o objetivo de Gunn é que cada projeto tenha o seu princípio, meio e fim, mesmo estando tudo conectado, então esta série precisa realmente de privilegiar esses detalhes.
Por concluir…
Não darei nota nem concluirei este texto por aqui, até porque me falta assistir a alguns episódios que ainda não tivemos acesso. Prometo uma atualização para breve com a conclusão e de que forma esta poderá ter alterado tudo o que foi aqui escrito até este momento. Preparem-se, no dia 21, para ligarem a HBO Max e verem o primeiro episódio de Peacemaker, porque é uma excelente série para vos acompanhar neste verão… Mas muito cuidado… Esta série de heróis não é para os mais novos.