Bill Furlong (Cillian Murphy) é um humilde vendedor ambulante que vive uma vida monótona a distribuir carvão pelas ruas de uma pequena vila irlandesa, profundamente marcada pela influência da Igreja Católica. No entanto, a sua vida muda completamente ao descobrir uma mulher presa num dos depósitos de carvão de um Asilo de Madalenas, instituições denominadas por “casas das mulheres perdidas” que abrigavam mães solteiras, as suas filhas e mulheres vítimas de abusos, visando a sua reabilitação, mas que, na verdade, muitas vezes se tornavam uma “prisão legal”, controlada pela Igreja.
Neste cenário de uma Irlanda dos anos oitenta — fria, chuvosa e envolta em mistério —, Tim Mielants conduz o espectador, pelo olhar do protagonista, através desta narrativa complexa, enquanto o próprio Bill parece ainda procurar respostas para o eterno conflito entre emoção e moralidade. E creio ser importante frisar isso: apesar de não conhecer a obra original de Claire Keegan, vi Pequenas Coisas como Estas como um filme muito mais sobre este intrigante personagem que é o Bill, do que sobre a tragédia dos asilos que infelizmente foi algo muito sério no país. Nesta obra, tanto a direção de Mielants quanto a magnífica fotografia de Frank van den Eeden parecem procurar envolver ao máximo o espectador nos pensamentos do protagonista. Isto é alcançado por meio de frequentes planos fechados e cenários sombrios e opressivos, transmitindo com eficácia a sensação de constante incerteza vivida pelo personagem. Durante vários momentos do filme, a história parece não estar a avançar e, só quando rebobinamos mentalmente o que acabou de acontecer no ecrã, é que percebemos as milhares de frases escritas nas entrelinhas.

O argumento de Enda Walsh agradou-me particularmente, e creio ser eficaz na mensagem que quer passar. Mas compreendo que, muitas vezes, parece ser explícito de mais, arranjando motivos para certas ações de forma quase frívola quando, na maior parte da longa-metragem, as respostas não nos são fornecidas de forma fácil.
As atuações são muito boas, tanto a de Cillian Murphy – que é o grande destaque do filme e que, cada vez mais, tem-se assumido como este ator que leva pessoas ao cinema, tal é a curiosidade para verem a sua performance – como a de Emily Watson que, apesar do pouco tempo em cena, consegue roubar para si o destaque de todas as cenas em que aparece. É também por este motivo que imagino que Mielants escolheu apresentar esta história desta maneira. A facilidade com que Murphy expressa emoções sem proferir qualquer palavra, apenas com o olhar e as expressões, dá significado a cenas que, com qualquer outro ator, seriam superficiais. E o realizador sabe disso.

Pequenas Coisas como Estas não é, de todo, um filme para toda a gente. No meu caso funcionou. No entanto, admito que o argumento e a realização ficam, em certo ponto, reféns da vontade de querer colocar o peso da narrativa nas costas de uma atuação impecável do Cillian Murphy que, apesar de ser correspondida, deixa a sensação que havia muito mais a explorar em relação às mulheres presas e a própria mãe do Bill, que, no fundo, é o ponto de partida de toda esta história.