Agata (Celeste Cescutti) perde os sentidos após o parto da sua filha, que acaba por nascer sem vida. Depois desta ser enterrada, o padre da sua vila revela a Agata que o nado-morto não poderá receber um nome e que, portanto, permanecerá sem o batismo, o que leva a mulher a acreditar que a sua filha estará para sempre destinada a deambular pelo limbo. Contudo, alguns aldeões parecem acreditar que existe uma distante igreja que concede a tais inocentes um primeiro e último suspiro – ressuscitando-os durante tempo suficiente para que Deus reconheça o seu nome e, por sua vez, os tire do limbo. Juntamente com Lynx (Ondina Quadri), Agata parte numa aventura em direção ao desconhecido e ao fantástico.
Argumento e atuações
O argumento de Piccolo Corpo é, sem dúvida, o ponto alto da longa metragem. Marco Borromei, Elisa Dondi e Laura Samani, que também dirige o filme, reescrevem a famosa jornada do herói, que se vê obrigado a enfrentar vários contratempos ambicionando chegar a um local distante, transpondo-a para a Itália antiga, o que foi fulcral para o argumento funcionar uma vez que lhes deu liberdade criativa para explorarem as crenças religiosas da altura, as lendas, a importância do papel da mulher na sociedade e o luto.
Depois de alguma pesquisa, é interessante notar que o argumento poderá ter sido inspirado pelas histórias verídicas de santuários em capelas remotas nos cenários montanhosos de Itália, onde no século XVIII se acreditava que imagens milagrosas ressuscitariam nados-mortos para permitir o batismo e o enterro cristão.
Tanto Celeste Cescutti, que dá vida a Agata, como Ondina Quadri, que nos apresenta Lynx, um aventureiro que descobrimos depois ser, na verdade, uma mulher rejeitada pelos próprios pais devido ao seu aspeto, entregam atuações sólidas capazes de segurar o enredo quando a realização, às vezes, acaba por se alongar ou por se tornar repetitiva.

Shaky cam e o trabalho de sound design
Samani opta por utilizar a técnica da “shaky cam” para a maioria dos planos após o parto e a consequente perda de consciência de Agata. A diretora escolhe usar esta técnica, aproveitando a falta de estabilização da câmara para proporcionar ao espectador uma sensação de desconforto, espelhando a falta de conforto da protagonista. No entanto, a meu ver, o que retirou um pouco da minha experiência audiovisual com Piccolo Corpo foi o uso excessivo deste recurso ao longo de toda a obra cinematográfica, tornando-se apenas habitual para o espectador e perdendo, assim, o seu propósito inicial.
Outro ponto menos positivo que tenho que destacar é a quase ausência de qualquer tipo de banda sonora durante a primeira hora de filme. Embora o trabalho de sound design seja interessante, a meu ver existem cenas que pecam pela ausência de certos elementos sonoros, como a música, por exemplo. Por sua vez, a fotografia de Mitja Licen é muito limpa e bem conseguida.

“Piccolo Corpo” e a questão do seu propósito
Piccolo Corpo é uma interessante reflexão sobre o luto, mascarada por uma história sobrenatural, que faz questão de abordar temas importantes como o papel da mulher na sociedade, recheado de várias analogias e metáforas. É uma experiência audiovisual em todos os aspetos e é aquele tipo de filme que fará o espectador parar e pensar – “O que é que foi isto? O que é que isto quer dizer?”.
Um excelente argumento, atuações sólidas e uma realização que conta com algumas escolhas que, para mim, não resultaram tão bem. Ainda assim, um bom filme da jovem realizadora.