Uma peça de teatro documental da companhia Hotel Europa que “reflete sobre a ditadura e a presença portuguesa em África”.
Qualquer acontecimento tem dois lados da estória. Tem duas versões do sucedido. O colonialismo não é exceção. Portugal não é um país pequeno é uma atuação que denota a inteligência com que olha para a história e, sobretudo, pela humanidade com que a devolve ao público. É uma peça que se vai construindo a partir da escuta – atenta, rigorosa e profundamente respeitosa.
A dramaturgia, sólida, bem estruturada, constrói-se a partir de testemunhos reais que se cruzam sem se encontrarem. Dando, assim, corpo a uma pluralidade de experiências que atravessam o passado colonial português e o período do seu colapso. Sou adepta de peças que têm por base a voz de testemunhos do tema em exploração. Usar o verbatim foi uma técnica ousada, e que resultou. Combinada com curtos diálogos com o companheiro de cena, e alguns jogos encenados para quebrar a monotonia – que nunca se verificou.
A composição dá espaço às diferentes versões da história: às pessoas negras, aos militares e suas famílias, a quem ficou e a quem regressou sem nada. Sem bens, sem lugar e, para muitos, sem reconhecimento. Essa multiplicidade não dilui o discurso. Pelo contrário, fortalece a ideia central de que, em todas as experiências, houve vítimas. Há vítimas. E é precisamente aí que o espetáculo se posiciona: não na procura de culpados fáceis, apontar de dedos, mas na exposição das feridas transversais a todos os lados.
A encenação revela um cuidado minucioso com os detalhes, sem nunca cair no excesso e pela economia de meios. Cada elemento em cena parece ter um propósito claro, mesmo que subtil, contribuindo para a construção de memória e significado. O uso de objetos quotidianos e simbólicos funciona como um elo entre o íntimo e o coletivo, entre a banalidade do dia a dia e o peso histórico que carrega. São elementos que remetem para hábitos, imaginários e hierarquias herdadas, tornando visível a forma como a história se infiltra nos gestos comuns.
O momento final, com o mapa de Portugal, sintetiza de forma simples e poderosa tudo o que foi sendo construído ao longo da peça. É uma imagem que não fecha o discurso, mas que o devolve ao espectador, convidando-o a repensar o país, a sua dimensão simbólica e as estórias e história que escolhe contar – ou silenciar.
O título da obra estabelece um diálogo direto como o célebre cartaz de propaganda do Estado Novo, “Portugal não é um país pequeno”, imagem-símbolo de uma visão imperial que moldou gerações. A peça não explica o cartaz, nem o contextualiza historicamente. Pressupõe-no. Tal como pressupõe um conjunto de bases sobre a história colonial portuguesa. É um ponto central da performance: Portugal não é um país pequeno não ensina – transmite. Nesse sentido, a peça exige do espectador um posicionamento ativo. Para o acompanhar plenamente, é necessário trazer consigo referências, conhecimento e consciência histórica.
Num contexto em que o debate sobre o passado colonial permanece frequentemente empobrecido por polarização e ruído, Portugal não é um país pequeno afirma-se como necessário. Bem escrito, bem encenado e emocionalmente honesto, recusa leituras únicas da história e aposta na complexidade como forma de justiça. Sai-se da sala não com respostas fechadas, não para aprender algo novo, mas para aprender a olhar melhor. – e isso é, talvez, uma das maiores qualidades do teatro.
