O mundo dos videojogos continua a expandir-se com títulos inovadores que desafiam convenções e exploram novos horizontes. Ravenswatch, desenvolvido pela Passtech Games e publicado pela Nacon, é um jogo de ação roguelike que promete oferecer aos jogadores uma experiência desafiadora, recheada de combates intensos e exploração tática. Mas será que cumpre as expectativas? Nesta análise crítica, exploramos os principais elementos do jogo, desde a sua jogabilidade até à narrativa, passando pelos gráficos e som.

Enredo e Ambientação – Uma terra de contos e pesadelos
Ravenswatch é ambientado num mundo sombrio inspirado por contos de fadas e folclores, misturando elementos familiares com uma reviravolta obscura. Aqui, personagens icónicas como o Capuchinho Vermelho, o Flautista de Hamelin ou Beowulf ganham novas vidas, como heróis destinados a lutar contra as forças das trevas.
A premissa é envolvente e intrigante, colocando os jogadores num cenário onde os contos de fadas não são apenas histórias inocentes, mas pesadelos cheios de perigos. A narrativa é apresentada de forma minimalista, com pequenas introduções para cada personagem e objetivos claros. Contudo, falta profundidade na construção do mundo e das relações entre os heróis e os inimigos. Embora a temática seja rica, o jogo não explora o seu potencial narrativo de forma mais completa, o que pode desapontar jogadores que procuram uma história mais desenvolvida.

Jogabilidade: Estratégia e Ação no Coração de um Rouguelike
A jogabilidade de Ravenswatch é um dos seus pontos mais fortes. Como roguelike, o jogo desafia os jogadores a explorar mapas gerados aleatoriamente, combater inimigos difíceis e enfrentar um boss final em cada área. A morte é inevitável e parte integrante do progresso, incentivando a experimentação e a adaptação.
Cada herói possui habilidades únicas, que oferecem estilos de jogo variados. Por exemplo, o Capuchinho Vermelho é uma combatente corpo-a-corpo feroz, enquanto o Flautista utiliza ataques à distância e táticas de controlo de multidões. Este equilíbrio entre personagens é bem conseguido, permitindo uma personalização da experiência.
Ainda assim, a curva de dificuldade é acentuada, especialmente para jogadores inexperientes. O combate é rápido e exige uma combinação de reflexos, planeamento e gestão eficaz de recursos. Por vezes, a quantidade de inimigos na tela pode tornar-se esmagadora, criando momentos de frustração. Além disso, o sistema de progressão poderia beneficiar de mais profundidade, como habilidades ou equipamentos que se mantenham entre runs, para oferecer uma sensação de evolução mais significativa.

Multiplayer: Cooperativo Bem Executado
Ravenswatch brilha especialmente no modo cooperativo, permitindo até quatro jogadores enfrentarem os desafios juntos. A sinergia entre personagens torna-se crucial, encorajando o trabalho de equipa e a comunicação. Jogar em conjunto realça a diversão e reduz a sensação de repetibilidade que pode surgir no modo solo.
Ficámos surpreendidos com a qualidade da confeção rápida e fluidez do jogo, uma vez que existem diversos elementos que poderiam mitigar os frames ou apresentar inconsistências gráficas. Do modo geral, jogando com o total de 4 jogadores (máximo permitido) não encontramos um único Bug visual ou problema que afetasse diretamente a nossa experiência e jogabilidade.
Por outro lado, o matchmaking online nem sempre é consistente, e a ausência de crossplay entre todas as plataformas pode limitar a comunidade de jogadores, um ponto negativo para quem prefere jogar com amigos em diferentes dispositivos. Por outro lado, tivemos alguns problemas no chat do jogo ou até mesmo na comunicação interna com outros jogadores, aspeto que mitiga parte da comunicação, importante em modelos cooperativos.

Gráficos: Beleza Num Mundo Sombrio
A estética de Ravenswatch é um equilíbrio entre simplicidade e estilo artístico. O design dos personagens é detalhado, com animações fluídas e visuais que captam a essência sombria dos contos de fadas. Os ambientes são igualmente bem concebidos, alternando entre florestas assustadoras, aldeias desoladas e castelos opressores.
Devemos também apontar para a qualidade das animações e de como as personagens captam muito bem a essência das personagens das histórias clássicas e figuras mitológicas. Consideramos que existiu um elevado esforço por parte dos artistas, em captar a verdadeira essência das personagens jogáveis e de traduzir as mesmas num vastíssimo leque de habilidades. Todas as personagens tornam-se diferentes, não tendo sentido uma saturação de habilidades semelhantes, mas sim uma multiplicidade de habilidades que tornam o jogo cativante, desafiador e único a cada replay.
No entanto, embora o estilo artístico seja cativante, falta variedade nos cenários. Após algumas horas de jogo, os mapas começam a parecer repetitivos, prejudicando a sensação de exploração.

Som: Atmosfera Imersiva, mas inconsistente
A banda sonora de Ravenswatch complementa bem a atmosfera do jogo, com composições que variam entre temas melancólicos e faixas intensas durante os combates. Os efeitos sonoros, como o impacto de ataques ou os rugidos dos inimigos, são satisfatórios e ajudam a transmitir a intensidade das batalhas.
A trilha sonora também se inspira nas antigas histórias e contos, explorando, muitas das vezes, a calma de um ritmo consistente ou transitando rapidamente para um ritmo incessante, crescente e envolvente. Este binómio sonoro causa um confortável desconforto, tornando impactantes as batalhas ou lutas dos bosses finais de cada estágio (capítulo).
Contudo, a ausência de vozes para os personagens é uma oportunidade perdida. Dado o peso narrativo do jogo, diálogos dublados poderiam adicionar uma camada extra de imersão e personalidade às figuras icónicas.

Rejogabilidade: Um pilar essencial de um roguelike
A rejogabilidade é fundamental em qualquer roguelike, e Ravenswatch cumpre parcialmente este critério. A possibilidade de experimentar diferentes heróis e explorar combinações de habilidades torna cada sessão única. No entanto, a falta de maior variedade em inimigos, mapas e mecânicas de progressão pode fazer com que o jogo se torne repetitivo após dezenas de horas.
O jogo articula-se em 4 capítulos (níveis / fases) que alteram e muito o ambiente. Tanto começamos num bosque sombrio como logo a seguir entramos num deserto vasto ou no submundo mais escuro, onde residem todos os pesadelos imagináveis. O fim de cada capítulo envolve uma luta final com um boss, após decorrer um tempo específico. Se ao longo desse tempo, enquanto personagem jogável, não evoluímos a nossa personagem a lutar contra outros monstros, podemos muito bem sofrer as consequências da luta contra um Boss super poderoso. As habilidades evoluem e transfiguram-se conforme vamos aumentando o nível da nossa personagem. Em momento algum, conseguimos repetir as mesmas habilidades que efetuamos num jogo anterior, fomentando a unicidade de cada jogo ou replay que fazemos.
Adicionalmente, embora existam atualizações e novos conteúdos planeados, a versão atual deixa a sensação de que o jogo poderia ter mais a oferecer em termos de conteúdo. Os bosses, por outro lado, tornam-se muito inconsistentes, podendo, por um lado, ser fáceis ou tornando-se numa enorme dor de cabeça, face às habilidades que temos para as personagens.

Performance e Polimento Técnico
Ravenswatch apresenta um desempenho estável, com tempos de carregamento rápidos e raros problemas técnicos. Mesmo em momentos de ação intensa, o jogo mantém uma taxa de frames consistente, essencial para um título que exige precisão.
Por outro lado, a interface do utilizador poderia ser mais intuitiva, especialmente no que toca à gestão de habilidades e estatísticas. Algumas informações importantes não são imediatamente claras, o que pode frustrar jogadores menos experientes.

Conclusão e Pontuação Final
Ravenswatch é um roguelike promissor que combina ação intensa com uma estética sombria e criativa, inspirada por contos de fadas. A jogabilidade é viciante, especialmente no modo cooperativo, e a diversidade de heróis oferece uma boa dose de personalização. Contudo, o jogo peca por uma narrativa pouco explorada, mapas repetitivos e uma curva de dificuldade que pode afastar alguns jogadores.
Para fãs de roguelikes ou jogos cooperativos desafiantes, Ravenswatch é uma experiência que vale a pena experimentar, especialmente se jogado com amigos. No entanto, para quem procura um jogo com uma narrativa mais rica ou um sistema de progressão mais profundo, poderá não ser a escolha ideal.