Resident Evil 4 Remake – a mi me encanta!

Podemos dizer que não fui daqueles que idolatrou a quarta entrada de Resident Evil como a grande maioria de quem acompanhava a saga desde o início. Eu cresci com a trilogia original e, dos três primeiros, tenho um carinho especial pelo terceiro. Acho que a minha PlayStation chegou a ter uma crise de identidade por não correr mais nada durante meses.

Porém, e só para dar uma achega nesta vaga de remakes que a Capcom decidiu fazer a esta saga, é seguro dizer que o terceiro título não se manteve como o favorito, sendo esse lugar agora ocupado pelo segundo jogo. O primeiro continua em último, apenas por não ter apanhado a nova vaga, e sinto que ainda falta pegarem nesse novamente, mas é algo que muito dificilmente irá acontecer.

Mas onde se situa este Resident Evil 4 agora que foi totalmente reconstruído para uma nova geração?

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As mudanças pelas quais passou foram mais que muitas. A mais óbvia é a nível gráfico. É obviamente evolução dos tempos, mas acho que ficava sempre surpreendido quando entrava numa zona nova e a minha memória entrava em choque com o que estava a ver atualmente. Essa mesma sensação existiu nos títulos anteriores, mas acho que aqui é mais gritante, principalmente por estarmos a falar de um estilo de gameplay mais próximo, enquanto que anteriormente eram, para todos os efeitos, jogos totalmente novos.

Há uma nova profundidade que não se fazia sentir no original, mas também estávamos numa altura em que títulos começaram a assumir uma tonalidade única, sem grande variação e não acho que tenha sido a melhor época para videojogos, visualmente falando. Ou era tudo acastanhado, como Resident Evil 4, ou tudo acinzentado sem grande saturação como Shadow of Colossus, ou azulado, ou seja qual for a cor predominante fazia-se sentir bem de título para título. E não melhorou nos anos que se seguiram.

Mas agora, é impossível não sentir a envolvência do ambiente. A sequência na vila é muito mais rica e detalhada, as casas já não são todas o mesmo bloco com uma mesa e cadeiras, têm personalidade própria. Mesmo o exterior ficou mais palpável, fazem-nos acreditar que estamos realmente numa qualquer vila rural de Espanha. Os primeiros passos que aqui damos, até ao grande confronto inicial, são instrumentados para criar uma sensação crescente de tensão, e resulta na perfeição.

Porém, para mim, a grande mudança que fez toda a diferença é o Castelo. É certo que todas as zonas foram alvo de uma restruturação, seja mais reduzida ou totalmente reconfigurada, mas nunca gostei da transição que existia dos espaços abertos da vila para esta estrutura mais gótica. Não me fazia sentido. Agora parece fazer tudo parte do mesmo.

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A escuridão que se cerca em Leon e Ashley, os dois grandes protagonistas desta história, não nos deixa relaxar nem por um segundo. Ainda que tenha reconhecido um canto ou outro, acho que esta foi a seção mais trabalhada a fundo. E foi bastante bem merecida e bem-vinda. Há uma certa fluidez em percorrer os vários espaços do castelo, nunca nos sentimos propriamente perdidos, apesar de nos fazerem andar às voltas. Assim que de lá saímos, voltamos para um ambiente exterior, mas agora mais bélico, o que volta a criar um choque visual, mas que aqui foi atenuado por haver uma direção artística mais coesa e atenta a esses detalhes. Sei que pode continuar a ser ferramentas e capacidades da atualidade, onde a tecnologia já permite acompanhar as necessidades mais básicas de um título que se quer cinematográfico, mas é essencial fazer esta comparação.

A nível de jogabilidade, e tudo aquilo que gira à sua volta, é estar a misturar alhos com bugalhos, onde os alhos são o original, os bugalhos o remake. O que antes facilmente se reduzia a correr, apontar, disparar e empurrar, é agora muito mais complexo e cheio de camadas táticas que nos permitem ter abordagens bem diferentes ao mesmo desafio. Uma dessas mudanças é a possibilidade de matar inimigos sem sermos descobertos e o caos inundar o ecrã. Em algumas zonas, chega mesmo a ser possível limpar por completo sem nunca darem pela nossa presença. Leon também já não fica estático assim que apontamos a arma, é possível continuar a andar, ainda que isso vá fazer com que a pontaria sofra ligeiramente. A opção de agachar, que nos permite aproximar de inimigos sem ser detetado, como referido anteriormente, também faz com que seja possível esquivar de objetos arremessados na nossa direção ou até alguns ataques. Continuam a existir alguns quick time events, mas felizmente nada perto da escala do original, costuma ser maioritariamente para esquivar alguns ataques.

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Os inimigos também tiveram direito a um salto que só veio beneficiar a experiência. Algumas caras conhecidas estão de volta, ainda que agora sejam mais espertos ou ameaçadores. Há os aldeães comuns, outros com motosserra, que já bem conhecemos, mas existem novidades como os Brutes, que facilmente se identificam por usar uma cabeça de javali, ou por terem um martelo gigante em mãos, o que talvez seja mais pertinente para a (não) sobrevivência do jogador. Outros foram ainda recondicionados, como por exemplo os Zealots, que só aparecem no castelo. Anteriormente só tinham uma variação meramente estética, com o robe vermelho, mas agora têm uma habilidade própria que força a que os outros inimigos fiquem “evoluídos”, logo mais mortíferos, e ainda condicionam as capacidades de Leon por breves momentos.

Para nos ajudar a fazer frente a estes adversários, temos todo um arsenal que pode ser encontrado, ou como muitos se vão lembrar, comprado e melhorado num famoso vendedor ambulante desta saga. Ele está de volta, tão ou mais característico que no passado, mas com algumas novidades. Seja na própria loja, como em alguns outros momentos que vão surgindo. Fica para descobrirem por vocês mesmos. E se se questionam se o restante elenco também marca presença, podem estar descansados que estão lá todos e até tiveram direito a mais tempo de antena.

Por falar nisso, a Ashley, uma das personagens incontornáveis deste quarto título, foi também melhorada, não sendo agora um empecilho ao combate. Nos momentos mais intensos, é possível rapidamente dar a ordem para ela se resguardar, não ficando tão próxima de Leon, ou dizer-lhe para se manter próxima caso precisemos de fugir de alguma situação mais apertada. Mas onde ela ganhou pontos, foi mesmo na sequência em que a controlamos. Sem a proteção do bem armado Leon, só temos ao nosso alcance os nossos pés, e eles foram feitos para correr! Apesar de ser uma sequência por si só já complicada no original, aqui é capaz de nos dar cabo dos nervos em dois segundos, não pela dificuldade, mas sim pela tensão e atmosfera que conseguiram criar. Se puder evitar aproximar-me desta parte toda num futuro próximo, agradeço.

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No que diz respeito à história, não podia ter ficado mais satisfeito com o que fizeram. A trama principal propriamente dita pouco ou nada foi mudada, mas agradeço que tenham decidido levar a coisa mais a sério. Ainda que o meu problema com Resident Evil 4 seja o rumo que a história passou a levar e não o tom, deixando para trás a base que havia e assumindo este “Las Plagas”, no qual tenho zero interesse, aqui conseguiram prender-me melhor pela forma como abordaram o assunto.

Continuo a sentir falta daquilo que me fez interessar e gostar de tudo o que diz respeito a Resident Evil, mas não havendo regresso possível, este é um caminho que me agrada mais, muito graças ao tom.

Mas nem tudo foi um mar de rosas. Acho que algumas coisas continuaram demasiado presas a outros tempos, sendo uma das mais óbvias a divisão clara deste remake em capítulos. Se estão a estranhar esta menção, não o faço por ser contra capítulos, estou apenas a falar na pausa propositada entre os mesmos, o que a mim só tem um efeito: lembrar-me constantemente que estou num videojogo. Seja quem for que faça isto, vai ter sempre esta minha reação quando o foco é a história. Fazem-me desligar da narrativa, perco o foco nos personagens, e fica muito mais difícil continuar a jogar ou, depois de uma pausa, voltar a ligar o jogo para continuar a aventura. Podem meter uma menção ao capítulo, de forma mais elegante e menos intrusiva, mas parar totalmente o jogo para aparecer um ecrã escuro a avisar que terminei um capítulo, é um grande não!

Existiram ainda alguns momentos, que consigo contar com os dedos de uma só mão, em que foi notória uma quebra na fluidez da imagem. Por norma, nunca afetou o jogo, era em momentos provavelmente escolhidos para carregar algum conteúdo sem que houvesse um ecrã próprio, mas quando existiam, faziam-se notar.

Também senti que em certas partes estavam propositadamente a esticar a duração de algo para que o jogo fosse mais longo. Mesmo assim certas sequências em relação ao original foram removidas (ainda que outras tenham sido adicionadas). Acho é que ainda existe uma necessidade de dar mais ao jogador a troco de não haver comentários como “foi muito curto para o valor que pedem”. Pode ser uma realidade em vários títulos, mas o oposto também existe. Se o jogo for bom, é bom. Não é por durar mais duas horas do que era necessário que vai fazer a diferença. Não é a duração que salva maus jogos de más críticas.

Mas ignorando isso, e focando naquilo que tenho identificado como evolução tecnológica ou como a “vontade” dos tempos, posso afirmar que a Capcom conseguiu não só fazer mais um excelente trabalho com um remake, como conseguiu mudar a minha opinião de “Resident Evil 4 é um jogo que existe” para “Resident Evil 4 Remake é uma excelente adição a esta longa saga” e que, na minha tabela, facilmente fica em segundo lugar, logo a seguir ao segundo título. Ainda não consigo mais que isso, mas já é bem bom e, mais importante que isso, melhor que o remake de Nemesis, o que na ausência de remakes era algo totalmente impensável para a minha pessoa de proferir. Entendo o peso da minha afirmação, mas mantenho-me convicto da mesma.

Resident Evil 4 Remake

Resident Evil 4 Remake
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Lançamento: 2023-03-24
Distribuição:
Estúdio:
9
Picture of Marco Almeida
Marco Almeida
Viciado em tudo o que conte uma boa história, desde cinema a videojogos, séries a banda desenhada, e até um bom jogo de tabuleiro. Tudo é motivo para me atirar de cabeça a universos alternativos. E já agora, o Scorsese está errado; o MCU é o pináculo da sétima arte! Quem respira, concorda!

Colaboraram neste artigo

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