Ribeirinha – A Rainha sem Coroa

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A vida da amante favorita de D. Sancho I

Sempre gostei de romances com as personagens reais perdidas pela História. Contudo, estou consciente de que a tarefa de trazer à luz algo desconhecido, mas real, é sempre perigoso. Logo, quando se critica livros deste género (romances históricos) começa-se, normalmente, pela autenticidade e pela estética. Porém, acrescento aqui um ponto extra: a profundidade.

A autenticidade

Apesar de não ser perita na época medieval, tenho ideia de que Vaz Godinho consegue efetivamente transportar o leitor para o mundo da época. No entanto, não temos contacto com a plebe, somente com a nobreza do interior e da corte, mas observamos que são distintas: nos seus antigos hábitos e obrigações, assim como divertimentos noturnos (trovadores, por exemplo). A linguagem utilizada pelas personagens é um pouco invulgar, tendo um quê de coloquial o que dificulta a compreensão. Este uso de coloquialismos é compreensível neste tipo de romances, visto que não poderia utilizar galego-português (porque a autora não o fala, nem o leitor o lê frequentemente), nem poderia utilizar calão em personagens de alta realeza. Contudo, continua a ser uma linguagem anacrónica.

A estética

Recebemos o melhor possível. Viajamos por lindas cidades (apesar de poucas). Tocamos nos melhores tecidos e joias que adornam a nossa querida Ribeirinha. Até o próprio D. Sancho tornara-se mais elegante que antes imaginado. Realmente, tudo na obra embeleza a realidade da época. Quase que por se tornar num conto de fadas, onde a própria Ribeirinha torna-se angelical. O problema desta situação é que a época medieval não é celebrada pela sua limpeza, e certas ocasiões, como jantares e encontros sociais que poderiam ganhar com descrições realistas, acabam por carecer por haver um exagero de embelezamento que foca atenção do leitor em partes menos importantes da obra.



Chegamos, portanto, ao último ponto. Profundidade é aquilo que torna estes romances históricos uma “delícia literária”. Quem lê livros históricos quer apaixonar-se pela personagem e pela sua história. Contudo, é natural que a história tenha buracos históricos, erros de autenticidade, visto nunca podermos saber o que é que realmente aconteceu. Porém, o receio de que estes erros sejam chamados à atenção por críticos literários levou a que autores de novelas históricas evitassem a todo o custo erros deste aspeto. Assim, temos livros de passagens rápidas, em que as personagens estão no Porto um dia e em Coimbra noutro, onde um homem está apaixonado e no dia seguinte está ferido de guerra.

Profundidade

É na profundidade onde este livro quebra. Enquanto Rabelo da Silva, ao debater-se sobre a mesma personagem, permite-nos ter uma opinião própria de Maria Pais Ribeiro, em Ódio Velho não Cansa, Fernanda Vaz Godinho obriga a que acreditemos que a Ribeirinha é uma santa. Todos a amam, porque não haveremos de a amar também? Porque nunca chegamos a conhecê-la. A personagem é tão vazia como se a estivéssemos a ler num livro de genealogia.

E então e a Ribeirinha?

Enquanto a personagem é apresentada com estereótipo de Mulher-Anjo, estando-lhe também ausente a perspicácia comum nas personagens femininas da atualidade, a verdade é que a verdadeira Ribeirinha é a primeira mulher que se destaca na nossa História por ser nem rainha, nem santa. Falamos de uma mulher, uma amante, que a história desejou celebrar inúmeras vezes. Chega a ser cantada por trovadores, até a pedido pelo próprio rei D. Sancho I. No entanto, não sabemos quase nada sobre si. A sua própria descendência, não sendo real, tornara-se parte das nobrezas mais importantes dos reinos da península.
Penso que ela merecia mais. Não. Ela merecia mais!

Ribeirinha - A Rainha sem Coroa

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Isabel Rezende
Descrever-me-iam em poucas palavras, antissocial, com cara de rufia, cabelo curto, esquisita e com uma atitudezinha de mosca. Escrevo desde os 13 anos, mas só comecei a ler seriamente aos 17 anos. No meu primeiro ano de licenciatura li dois dicionários, curou-me o ódio pelos livros. Sou uma alma velha num corpo de criança, tudo me surpreende ou me enfurece.

Colaboraram neste artigo

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