Saltburn

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Ou por outras palavras, a faculdade faz de qualquer um doido…

Quem não gosta de começar o ano com um filme cuja definição em questões de tom ou género, por si só, dava outro filme? Saltburn, o novo filme de Emerald Fennell (vencedora do Óscar para melhor argumento original com Promising Young Woman), torna-se mais forte, contrariamente ao lógico e esperado, nessa sua mesma indefinição, posicionando-se como uma agradável surpresa, exatamente pelo facto de surpreender. Se há algo que Emerald Fennell sabe fazer é criar um argumento que em nada se assemelha ao resto da grelha, e prova-o mais uma vez com esta mistura de Teseus e o Talentoso Mr. Ripley. Se há algo que este filme é, venham os mais críticos apontar os defeitos todos que quiserem, é ousado. Numa época de remakes e sequelas, embora quase que, paradoxalmente, pudéssemos considerar a ideia como uma reinterpretação do mito grego do Minotauro, Saltburn sobressai pelo risco e pela diferença.

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Estrelado por Barry Keoghan, numa interpretação que o cimenta como um dos grandes atores da sua geração e que o devia colocar como front runner para uma nomeação na categoria de melhor ator, contamos ainda com Jacob Elordi, Rosamund Pike, Carey Mulligan e Archie Madekwe. Saltburn desenvolve-se nos anos 2000 e acompanha o estudante universitário Oliver Quick (Keoghan) na sua maníaca perseguição por aceitação e estatuto. Oliver, que tem dificuldades para se encaixar na Universidade de Oxford, planeia de forma cuidada a sua escalada social, aproveitando-se das possibilidades que as pessoas ao seu redor lhe promovem para alcançar o seu objetivo principal. Qual é este objetivo? Parece que fica entregue ao espectador decifrar. Após conhecer Felix Catton (Elordi), Oliver é imediatamente atraído pelo mundo aristocrático do jovem – que o convida para passar uma temporada em Saltburn na casa da família. A obsessão por Felix é notória desde o primeiro momento, e Emerald consegue equilibrar motivações diferentes, ora admiração, ora paixão, ora desdém, de forma magistral, deixando-nos sempre na dúvida do porquê das ações de Oliver. Rapidamente, o que começa como uma amizade aparentemente inocente logo escala para um suspense psicológico que nos deixa agarrados ao ecrã, embora algumas vezes com uma almofada entre os nossos olhos e o filme, numa tentativa de amenizar os vários momentos inesperados, para muitos até perturbadores.

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Aliada a uma cinematografia envolvente e sombria, o design de produção cuidado e a uma trilha sonora pungente, criam toda uma atmosfera que nos faz mergulhar num verdadeiro conto mitológico, em que cada personagem desempenha o seu papel na construção e destruição do seu próprio destino. A representação de Keoghan e Pike transformam por completo personalidades que poderiam cair no ridículo em pessoas credíveis, com desejos e ambições complexas. O argumento, no entanto, embora original, e sem medo de fazer referência, deixa algumas lacunas no espectador, o que faz com que, embora o crescendo da narrativa seja sólido, fiquem perguntas por responder que não deveriam ficar. A ambiguidade torna-se, deste modo, ao mesmo tempo o ponto mais forte e mais fraco do filme em si, resultando de forma soberba quando bem conseguida, mas deixando também algumas pontas soltas que acabam por comprometer toda a história.

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Em última análise, sem dúvida um dos filmes do ano, Saltburn emerge como um feixe de luz num mar escuro e saturado de falta de originalidade, merecendo toda a atenção que tem recebido, exigindo mesmo, atrever-me-ia a dizer, que seja visto e revisto para que o espectador se delicie em cada pormenor inóspito.

Saltburn

Saltburn
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Lançamento: 2023-12-22 Ano: 2023
Realizador: Argumento:
Duração: 131 min
Distribuidora:
8.5
Picture of João Simões
João Simões
Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.

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