O Spider-Man sempre foi um dos heróis que mais acompanhei e mais me acompanhou ao longo da vida. Isto não é dizer grande coisa, é talvez um dos super heróis mais adorados por fãs de banda desenhada e não só. Está em papel, está em brinquedos, está em jogos de tabuleiro, está animado na televisão, seja em formato série seja em formato videojogo, e neste formato está espalhado por imensas plataformas, e está, como é óbvio, no cinema. Portanto, dizer que ele fez parte da minha vida torna-me tão especial quanto um pastel de nata em Belém. Sou só mais um!
Ainda assim, já passei por muitas iterações, inclusive a fase do Andrew Garfield que acrescentou zero e foi um golpe baixo para a Sony continuar a deter os direitos que obteve num momento fraco da Marvel. Eu até acho que houve ali alguns pontos altos naqueles dois filmes, mas foi uma jogada tão desinteressante que nunca me caiu muito bem aquela exploração barata que estavam a fazer.
Enfim, águas passadas, que agora são todos muito amiguinhos e nós, fãs e espetadores, saímos a ganhar deste novo acordo que lá conseguiram engendrar. Pelo menos, durante três filmes a solo saímos a ganhar…
Um dos meus maiores medos era que o Peter Parker, nas mãos de Tom Holland, nunca fosse aparentar crescer. Confesso que nos primeiros três filmes, que adoro, tive essa sensação e sempre terminei os filmes a pensar “ok, mas quando é que ele vai parecer adulto?”, porque todos sabemos que vai chegar esse momento, não podem continuar a tratá-lo como um adolescente.

Acontece que o tempo, sendo esse tempo 10 anos entre o Homecoming e este Brand New Day, tiveram o seu efeito e realmente agora sinto que estamos finalmente na fase adulta de Peter Parker.
Claro que as marcas do passado mais recente de Peter se fazem sentir, e bem, neste filme. A solidão é palpável, o sentimento de perda faz-se sentir nos ombros, a inexistência de um objetivo é suportada pela incessante procura de algo que lhe ocupe a mente, sendo esse algo a dedicação cega no trabalho que está a fazer ao lado da detetive DeWolff e noites dentro a observar os, outrora, seus amigos a seguirem com a sua vida como se nada fosse. E para eles, nada é, porque ninguém se lembra que Peter Parker existe.
Dói um pouco no coração vê-lo neste estado, não só porque é uma realidade bem marcada nos dias de hoje, o sentimento de ser invisível e o tentar marcar a diferença em algo que é mais para os outros do que para nós, mas também porque é um lado que a Marvel tende a ignorar ou a levar com humor a mais, mas aqui até se deixaram ir um pouco mais além.
Isto não só foi importante para percebermos o estado de espírito em que ele se encontra, mas também como foi um bom instrumento que usaram ao longo da narrativa para nos fazerem sentir ainda pior.
Por norma, aquilo que encontramos é um sentimento de perda mais óbvio, que também custa como tudo, principalmente quando é inesperado, como o foi com a sua tia em No Way Home, mas conseguirem ter seguido um caminho mais sério e fazerem disso um arco narrativo que faz sentido, mesmo como ato isolado dentro de um universo cinematográfico já de uma escala algo assustadora, é realmente de louvar.
Não acho que isso tenha sido conseguido nos filmes passados, que em muito se tentavam introduzir em narrativas paralelas só para nos lembrarmos que isto fazia parte de algo maior, e acabaram por perder mais do que ganhar. Aqui fazem o mesmo, mas sem magoar a narrativa principal.

Em Brand New Day, ajuda bastante que o vilão não seja apenas “carne para canhão”, pois já sabemos bem onde isso nos leva. Contudo, independentemente de haver ou não planos para estes personagens no futuro, o filme cumpre a sua missão: entrega uma excelente história de superação e de luta interna com a nossa própria essência, questionando quem decidimos ser dali para a frente.
Este é um trabalho que não se faz por ter apenas à frente uma figura tão icónica como Spider-Man. E já vimos que realmente isso não acontece por apenas existir mais um filme para gerar uns trocos.
Isto só acontece quando temos um realizador que não só já está dentro deste universo, como os seus alicerces estão em mostrar o lado humano de uma história. E acontece quando quem dá vida aos personagens acredita totalmente naquilo que são e representam, e têm voz ativa no seu desenvolvimento. E têm atrás de si alguém que também está aberto a ouvir todas as vozes envolvidas e não apenas aquelas que escrevem no papel. É talvez algo que pode nem vir a acontecer tão depressa novamente, porque alinhar os astros desta forma não é algo que costuma acontecer muito quando o assunto é filmes de super heróis.
Mas como filme, Brand New Day é tudo aquilo que todos os filmes de Spider-Man tentaram ser e não conseguiram na totalidade. Uma história com os pés bem assentes na terra, nas origens de quem é verdadeiramente este personagem, que introduz novos personagens que nos vão acompanhar durante muitos e longos anos, ou assim parece vir a ser, e que ficam todos ligados a esta grande teia de uma forma bem desenvolvida não só na narrativa mas também a nível emocional.