Por um breve instante, imaginemos alguém que vive nos difíceis anos oitenta dos Estados Unidos da América, fortemente marcados pelos problemas económicos associados à guerra do Vietname. Na rádio, uma voz rouca e crua explode num grito (um tanto quanto patriota) de protesto. Com a sua característica ganga e a sua telecaster na mão, Bruce Springsteen lança, em 1984, o aclamado álbum “Born in the USA”, elevando-o ao estrelato mundial e cimentando de uma vez por todas a alcunha “The Boss”.
Com uma introdução assim, seria difícil de imaginar que Scott Cooper quebraria qualquer regra de ouro dos monótonos argumentos de filmes biográficos, nomeadamente quando o assunto são figuras ilustres da indústria musical, que temos vindo a ser habituados. Uma figura como Bruce Springsteen serviria como o protagonista ideal para tal, o furacão do rock que abalou os anos 80. No entanto, “Springsteen: Deliver Me From Nowhere” cresce ao escolher o caminho oposto, mostrando a vulnerabilidade de uma pessoa desgastada física e mentalmente que sentia que precisava de lançar o álbum “Nebraska”, de 1982, tido até hoje como o trabalho mais pessoal da carreira do artista, antes de subir à mais alta prateleira de celebridades da época.

A direção de Scott Cooper é competente, optando diversas vezes por planos mais fechados, visando transparecer para o espectador toda a carga emocional com que Springsteen lidava naquele período de tempo. No entanto. são as performances de Jeremy Allen White, que não só atua como consegue atingir todas as notas cantadas por Bruce nas gravações originais, e de Jeremy Strong que consegue “roubar” todas as cenas em que aparece para ele mesmo, que prevejo que sejam o trunfo desta obra. Uma nota final para a minha experiência pessoal na sala de cinema, onde recomendo que o vejam, pois a fotografia de Masanobu Takayanagi e o trabalho de som, a cargo de Jeremiah Fraites funcionam muito bem.

“Springsteen: Deliver Me From Nowhere” é uma representação intimista de um determinado período da vida de um homem que antes de ser o “Boss” precisava de tirar algumas coisas de cima dos ombros, fazendo-o na forma de um álbum que, se nunca fosse ouvido por ninguém, teria exatamente o mesmo efeito que teve. Bruce não precisava que ouvissem “Nebraska”. O álbum era o seu grito mais honesto e uma forma de lidar com a depressão que o abalava. A linguagem que Cooper escolheu para esta sua obra vai trazer críticas mistas, no entanto, na minha opinião, é mais honesta, mais bonita e, no cômputo geral, melhor conseguida que as music biopics com que temos vindo a ser bombardeados nos últimos anos.