Suplicantes – A Europa em cena

Em fevereiro, a peça Suplicantes, da estrutura Cassandra, texto e encenação de Sara Barros Leitão, apareceu em Coimbra.
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Há produções que reencenam clássicos. Suplicantes de Cassandra não é uma mera adaptação, é uma reabertura de feridas contemporâneas. A criação parte da tragédia de Ésquilo e transforma-a num dispositivo político atual, urgente e profundamente europeu.

No clássico grego, 50 irmãs fogem de casamentos forçados no Egito. Atravessam o mar Mediterrâneo de barco, desaguando nas areias da Grécia, onde pedem asilo. Ou seja: é uma história antiquíssima sobre refugiadas, mar Mediterrâneo e pedido de refúgio. E é exatamente aí que a adaptação entra. Há uma atualização da narrativa, bem como um reposicionamento do eixo de leitura, revelando uma grande consciência do poder da arquitetura teatral.

Para perceber quão politicamente frontal é esta obra, basta ler a sinopse. E como se diz em muitas discussões: “tudo é política”. Verdade. Mas esta proposta vai além dessa constatação. Faz-nos questionar o nosso dia a dia, as nossas escolhas. Não oferece respostas fáceis nem procura moralizar o público. Em vez disso, constrói um espaço de pensamento, desconforto e responsabilização.

Nesta versão de 2025, refletimos sobre o próprio projeto europeu, sobre fronteiras, sobre pactos de hospitalidade, acolhimento e integração. Deslocamos o foco para a classe social e para a desigualdade estrutural como forças que moldam e questionam quem pode, de facto, emigrar. E quando a migração ocorre entre países europeus? Quem tem direito a pedir ajuda? Quem decide quem merece proteção? Até que ponto a hospitalidade depende da nacionalidade, do passaporte, do capital simbólico ou económico?

É neste ponto que a peça introduz também o discurso frequentemente mobilizado pelos governos e pela opinião pública europeia – o discurso da gestão, da segurança, da capacidade limitada, da necessidade de “equilíbrio” entre solidariedade e estabilidade económica. Não se trata de caricaturar esse discurso, mas de expô-lo à sua lógica interna. A construção dramatúrgica mostra como esta retórica, aparentemente pragmática, pode coexistir. Também ela real. Sustentada por argumentos que merecem ponderação e reflexão séria. Ajudar uns não deve significar negligenciar outros. Há espaço para todos. Todos têm direito à mudança e à sobrevivência.

Em vez de tentar ilustrar o mundo antigo, o espetáculo constrói um espaço cénico que funciona como assembleia, tribunal e fronteira, simultaneamente. Esta ambiguidade espacial é fundamental. O público – nós – é colocado numa posição de observador, mas também de potencial cúmplice.

Entre diálogos, que fazem avançar o enredo, somos confrontados com monólogos que nos atingem com violência. Questionam o nosso posicionamento na sociedade global e desmontam a ilusão de inocência individual. Como conciliar a empatia com hábitos de consumo que perpetuam a exploração ambiental, laboral e social? Como condenar a desflorestação e investir em indústrias extrativistas? Como defender todas as ideias de inserção e ser assídua nos pedidos de take away?

Ao ouvir os monólogos da personagem migrante, o ator Sandro Feliciano apresenta-nos um contar de estória de intensidade emocional devastadora e remata-nos ao revelar que se trata de uma criança de quinze anos morta na travessia marítima. O efeito é brutal e profundamente humano. O espectador deixa de poder refugiar-se na abstração estatística. A mim deu vontade de me levantar e segurar-lhe a mão.

Por outro lado, a dramaturgia constrói uma tensão permanente. E neste âmbito, é o ator Ricardo Vaz Trindade que encarna a voz do poder institucional, frequentemente percecionada como antagonista. Contudo, a encenação evita a simplificação maniqueísta. O discurso surge estruturado, coerente, expondo uma complexidade que merece discussão e desenvolvimento.

É aqui que entra o poder da linguagem. Outro eixo fundamental da construção. Não interessa se falamos a mesma língua ou se utilizamos as mesmas palavras quando não queremos compreender o outro lado. No papel de Lígia Roque vemos materializada a figura da tradução – literal e simbólica. Mesmo utilizando as mesmas palavras, a mensagem não é transmitida de igual forma. Para além de que tem em seu poder traduzir o que e como quer. Quem traduz decide o tom, o enquadramento, a hierarquia das informações. Relembrando que as notícias nos chegam já mediadas, traduzidas e reescritas.

A encenação evita a configuração fácil e aposta antes numa sobriedade inteligente, confiando na força do texto e do corpo coletivo, e o ritmo das entradas e saídas constrói uma gramática cénica precisa. O trabalho físico e rítmico cria uma tensão constante que sustenta o gesto artístico sem recorrer a artifícios excessivos. Esta economia de meios reforça a força da palavra e a densidade do dispositivo cénico.

Igualmente forte é o equilíbrio muito conseguido entre a solenidade trágica, o humor subtil e crítico e os momentos de frontalidade. Esta alternância impede a saturação emocional e mantém o espectador num estado de vigilância ativa.

Ao recentrar a tragédia na questão da classe e da desigualdade, a dramaturgia desmonta a ideia confortável de que a crise migratória é apenas um problema humanitário distante. Mostra como esta problemática está mais perto de nós do que imaginamos; está profundamente ligada à estrutura económica europeia.

Suplicantes afirma-se como uma das criações teatrais portuguesas mais relevantes dos últimos anos. E confirma o percurso da encenadora na criação de teatro documental e politicamente comprometido.

A tragédia torna-se, assim, uma ferramenta para compreender o presente: um género antigo para um mundo que continua a produzir destinos trágicos.

O resultado é uma peça que não apenas revisita um clássico – revela a sua inquietante atualidade.

Suplicantes

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Ano: 2025
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Daniela Carvalho
Literatura. Ativismo. Feminismo. Teatro. Doutorada em Epidemiologia, Data Manager por profissão e escritora por necessidade. Escrevo contos, crónicas, textos de opinião e crítica - sobretudo de teatro e livros. Sou autora de dois livros, atriz e encenadora amadora. Feminista, ativista e preocupada pela saúde mental. Gosto tanto de super‑heróis como do mundo Disney.

Colaboraram neste artigo

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