Há algo de viciante no Tetris que nos faz quer jogar apenas mais uma rodada, uma e outra vez. Contar a história de como este jogo se tornou um fenómeno internacional. A premissa sugere logo um filme interessante, mas a forma como Tetris tenta transformar essa história de patentes e direitos legais em algo mais próximo d´”A Rede Social” ou até mesmo num filme de espionagem dos anos 80, leva-o mais além.

Taron Egerton estrela como Henk Rogers, um designer de videogames holandês que testemunha a demonstração de Tetris numa convenção em Las Vegas, imediatamente percebendo o potencial revolucionário deste jogo. Fundador da Bullet-Proof Software, Henk embarca numa jornada para adquirir os direitos internacionais de Tetris, enfrentando desafios inesperados ao descobrir que o governo russo é o verdadeiro proprietário do jogo. Rogers é um jogador de baixo nível no mundo dos jogos e obter os direitos para algo como Tetris exigirá navegar entre figuras poderosas nos negócios e na política.
Tetris mostra-se um filme complicado sobre um jogo simples. É apenas um jogo de blocos que caem, mas os detalhes por detrás de como esse jogo veio parar às nossas mãos, sobre participação de mercado, direitos legais e política da Guerra Fria, trazem este filme para fora do ecrã. Com um primeiro ato hiperativo que usa gráficos de 8 bits e a narração de Egerton um pouco caoticamente, Tetris acaba por estabilizar quando Rogers chega à Rússia. Neste ponto, Rogers já apostou o futuro financeiro da sua família o que, perante todas as peripécias, explica a forma como Egerton vende de forma inteligente a incapacidade de Henk de aceitar um não como resposta, mesmo quando a KGB está envolvida. Enquanto tenta obter os direitos de forma a vender Tetris à Nintendo, para que estes possam incluí-lo na sua nova consola portátil, encontra o homem que realmente inventou o jogo, Alexey Pajitnov (Nikita Yefremov), mas nada é fácil, especialmente na Rússia. Ele não conhece o idioma, não conhece as leis, mas também não se importa porque nada o impedirá.

Um filme baseado em Tetris inicialmente parece uma ideia que beira o absurdo, um sinal de Hollywood que esgotou as suas fontes criativas. No entanto, Tetris surpreende ao apresentar uma abordagem diferente, que homenageia não apenas o jogo em si, mas também a era à qual pertence. O filme habilmente entrelaça política, negociações obscuras e amizade em meio à Guerra Fria, com destaque para a relação entre Henk e o inventor do Tetris, Alexey Pajitnov. A amizade improvável entre esses dois personagens é o núcleo emocional da narrativa, e é testada à medida que o destino do Tetris é decidido.
Tetris é uma jornada cinematográfica inesperadamente cativante, que transcende a premissa inicialmente peculiar. Ao abraçar a estética do jogo e a nostalgia da era, o filme destaca-se como uma experiência inteligente e, de certa forma, brilhante. É um lembrete de que, por trás das aparências, pode haver uma história rica e envolvente a ser contada.