The DioField Chronicle – Estratégia elitista

É impossível esconder a surpresa que foi cruzar-me com The DioField Chronicle. As expetativas eram nenhumas, tendo em conta que o pouco que havia ouvido falar deste título da Lancarse, e produzido pela Square Enix, não era o suficiente para ficar imediatamente agarrado. Mas após os primeiros minutos de jogo, era claro que havia ali algo que me estava a cativar rapidamente.

A apresentação do próprio jogo é bastante boa. Nem é tanto por surpreender visualmente, mas sim pela forma como as personagens se mostram. Eles têm presença, a indumentária de cada um deles acrescenta à personalidade, e conseguem ser intrigantes o suficiente para querermos saber mais. Nenhum deles é necessariamente expressivo, mas a postura de cada personagem acaba por funcionar bastante bem.

O que me apanhou efetivamente de surpresa foi a jogabilidade, e acho que este é o verdadeiro gancho de The DioField Chronicle. Logo nos primeiros instantes, somos atirados para uma missão rápida que nos introduz facilmente a todas as bases de cada batalha. Estas funcionam muito ao estilo de um jogo de estratégia em tempo real. Ou como eles lhe chamam, “Real Time Tactical Battle”, batalha tática em tempo real. Pensem em algo como X-Com ou Mario + Rabbids, mas sem haver tempo de espera para fazermos todas as nossas jogadas. Decidimos onde as nossas unidades (personagens) vão, se atacam todas um adversário ou se existe uma divisão das mesmas, e sempre que quisermos, e tenhamos energia para isso, podemos usar habilidades para infligir mais dano.

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Nas várias batalhas que vamos encontrar ao longo do jogo, podemos ter a sorte de ir acumulando Jade, um dos recursos mais valiosos de DioField, a localização onde se passa este título. Este recurso é também aquilo que nos vai fazer evoluir os companheiros que podemos invocar para descarregar uma boa dose de dano nos adversários. Quem esteja familiarizado com outros nomes da Square Enix, como Final Fantasy ou Kingdom Hearts, sabe bem o que são estas figuras, onde é necessário acumular pontos ao longo da batalha e eventualmente conseguem invoca-las. Com Jade, é possível melhorar o dano que dão, a área de efeito, e outras regalias que nos dão uma ajuda essencial em momentos mais complicados.

É um sistema de combate rápido e estratégico, tal como eles o indicam, mas que funciona incrivelmente bem. Consegue equilibrar na perfeição algo que pode ser complexo e desafiante, mas sem nunca deixar de ser divertido.

Está sempre nas nossas mãos decidir como abordar cada combate. Escolher que caminho percorrer, quantos inimigos enfrentar de cada vez, que recursos ir recolher, antes, durante ou depois dos combates, e sempre com a possibilidade de dar uma pausa, decidir os próximos passos, e executar tudo sem qualquer problema. Se aquilo que planeamos vai resultar, já é outra conversa, mas é esse o desafio que nos estão a propor e não resultando à primeira, é regressar após evoluir os personagens, seja a repetir missões anteriores ou fazer missões secundárias.

As missões têm alguma variedade, mas não são nada de novo. Derrotar inimigos, capturar zonas, defender a base ou acompanhar aliados pelo mapa e defende-los. São o suficiente para que não estejamos sempre a fazer o mesmo, e é um desafio adicional a cada batalha. E se quisermos aproveitar ao máximo cada missão, há certas condições que podemos preencher para alguns pontos extra. Seja completar a missão abaixo do tempo limite ou conseguir abrir cofres espalhados pelo mapa, é tudo mais um incentivo para sermos bem-sucedidos.

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Com aquilo que ganhamos ao completar as missões, evoluímos os personagens assim como armas, equipamentos e podemos ainda financiar o desenvolvimento de algumas áreas da nossa base. Isto vai fazer com que novas melhorias possam ser desbloqueadas, seja de equipamento ou dos personagens.

A partir daqui, acho que as coisas começaram a cheirar demasiado a esturro para o meu gosto.

Visualmente, The DioField Chronicle é bastante pobre. Houve uma clara aposta nos personagens, onde nomes como o de Isamu Kamikokuryo, reconhecido pelo seu trabalho em variados Final Fantasy, elevam a qualidade daquilo que nos é apresentado, mas tudo o resto parece ter ficado algo esquecido pelo caminho.

Os cenários são despidos de qualquer personalidade, não têm vontade alguma de nos tentar fazer sentir absorvidos por aquele universo. Salas genéricas, mapas delimitados por árvores, rochedos, castelos ou masmorras, pouco mais. Tudo bem simples e sem profundidade alguma.

O mesmo se pode dizer das vocalizações. A dobragem em inglês é simplesmente desastrosa. Por norma, nem sou de estranhar, mas tive de mudar rapidamente para a versão em japonês, que apesar de não ser das melhores coisas já feitas, está a anos luz da dobragem.

Tudo isto faz ainda mais confusão quando estamos quase a ter um aneurisma por tentar acompanhar aquilo a que eles chamam de história.

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Assim de forma introdutória, nós somos um grupo de mercenários que estão a tentar criar um nome para si mesmos. Por obra do destino, começamos este jogo a salvar Lorraine, a responsável por contratar uma equipa de defesa para o reino de Alletain. Esta necessidade surge após a derrota da Alliance por parte da Empire, que agora foca as suas atenções em Alletain. Além disso, DioField é rico em Jade, o recurso que mencionei em cima, daí que exista um desejo em poder explorar a ilha, já que fora dela a Jade é usada, e gasta, por magia moderna, enquanto DioField usa a magia ancestral, que não debilita esses recursos.

Isto até é algo que poderia ser bem explorado, e nem é complicado de se contar. Até poderia haver aqui uma crítica ambiental, ou poderia ser apenas algo simples e direto. No seio de DioField, há traições, intrigas, grupos que se tentam sobrepor uns aos outros, mais do que conteúdo para uma boa trama. Mas o grande drama é conseguir compreender a salganhada que eles conseguiram fazer. Nomes atrás de nomes, personagens que nem sequer interessam estão a ser mencionados até à exaustão durante minutos, em sequências que não levam a lado algum. Isto acompanhado de uma excelente banda sonora, mas que é tão reduzida e tão pouco variada que comecei a dar em maluco quando ouvi a mesma música pela septuagésima vez.

Fora destes instantes, que por norma são “breves” introduções a cada batalha, podemos também interagir com os vários elementos da nossa equipa. Porém, senti que houve um padrão que me deixou algo desconfortável. Uma das primeiras missões secundárias que nos é dada, por outro elemento da equipa, é para irmos recolher alguns ingredientes porque ele quer fazer um jantar para todos. Conversa puxa conversa, tenho de ir falar com uma rapariga da nossa equipa que ela tinha a receita para algo que ele adorava comer. Algures no tempo, passamos de ter uma missão para o nosso companheiro de equipa fazer um jantar para que seja ela a fazer tudo. Tudo bem, afinal de contas era ela que sabia a receita, acaba por ser mais prático ser logo ela a fazer do que pegar ele e depois sair tudo errado.

Avançamos um pouco mais no tempo e voltamos a fazer conversa com outra personagem feminina da nossa equipa. Ela mostra alguma admiração pelo personagem principal, pela fama que ele tem como mercenário, ao que ele responde que ela está é à procura de se casar com ele. Ficamos a saber que ela na verdade nunca quis isso com ninguém e que até se dedicou à profissão que tem para evitar um casamento forçado. Resposta? “Bela maneira de evitar um casamento”.

Se calhar sou só eu, não pode ser assim tão vincada esta necessidade em colocar os personagens femininos nesta situação. Ainda assim, mal outra personagem feminina fala mal da igreja, é porque não se quer casar. Será que acabamos de ouvir uma mulher na sala a dar a sua opinião tática e profissional? Não se preocupem que já aí vem um homem manda-la embora. A cozinha é no segundo andar, caso se estejam a perguntar.

Obviamente que este não é, infelizmente, o único caso que encontramos na indústria que ainda toma algumas decisões “criativas” mais dúbias, mas seria o último lugar em que esperava encontrar tais situações. É que além da história ser a confusão que é, os personagens não são muito melhores.

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Estamos aqui a lidar com mercenários que sempre estiveram envolvidos com realeza e clero, muitos deles nascidos em berço de ouro, que o mais próximo que devem ter estado de alguma dificuldade, foi quando tiveram de descer um lance de escadas para chegar até ao salão de baile. Acho que não consegui desenvolver qualquer tipo de afinidade com nenhum deles porque não houve situação alguma que os fizesse questionar se tinham agido corretamente. Nem homicídio por desporto, ou porque apenas podem, os levou a parar um segundo e perceber se havia ali algum problema na missão que se encarregaram de levar a bom porto.

Aliás, depois do que vimos, existe sequer vontade de ajudar esta equipa a alcançar o sucesso? É que a certo ponto estamos a ser questionados se devemos silenciar a democracia, porque eles próprios não querem que ela exista. São todos uns pirralhos mimados, a ser controlados e comandados por pessoas que olham para o mundo sentados em cima do privilégio.

Nunca pensei que ia desenvolver tanta aversão a todo um elenco de personagens de um qualquer videojogo como aconteceu em The DioField Chronicle. Normalmente há um ou outro que lhe falta um parafuso, mas faz parte. Até chego a compreender vilões. Mas isto chegou a um nível quase digno de lavagem cerebral.

Contudo, não posso ignorar tudo resto que de bom há para retirar deste jogo. A jogabilidade é excelente, onde cada batalha, e tudo aquilo que nela nos enche a vista, é um novo desafio que queremos ultrapassar e apreciar, para conseguir melhorar os nossos personagens e continuar a progredir. Esteticamente estão todos muito bem desenhados e a nível técnico todos eles trazem algo de útil à equipa, daí que seja fundamental escolher bem quem levar em cada missão. E a banda sonora é boa, mas deveria ter sido um pouco mais explorada, nem que fosse apenas para cortar um pouco a repetição constante do mesmo tema na introdução de cada missão.

Tudo o que de bom existe, está bem concentrado no combate. O que é pena, já que poderia ter muito mais para oferecer. A base está lá toda, mas algo passou totalmente ao lado de uma equipa que deixou escapar pelas mãos a premissa de uma boa história.

The DioField Chronicle

The DioField Chronicle
Picture of Marco Almeida
Marco Almeida
Viciado em tudo o que conte uma boa história, desde cinema a videojogos, séries a banda desenhada, e até um bom jogo de tabuleiro. Tudo é motivo para me atirar de cabeça a universos alternativos. E já agora, o Scorsese está errado; o MCU é o pináculo da sétima arte! Quem respira, concorda!

Colaboraram neste artigo

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