The Gray Man – Isto de cor não tem nada
Publicado a 10 Set, 2022

Ou por outras palavras, tutorial de como desperdiçar milhões em suaves prestações de 2 horas…

The Gray Man, a mais recente aposta da Netflix para sucesso de bilheteira, reúne estrelas do mais alto calibre, realizadores com nome, sequências de ação ousadas, e um orçamento milionário. A pergunta que se impõe é a seguinte: terá valido a conta? A resposta impõe-se também passados quinze minutos de filme: não.

Baseando-se numa tão tradicional história de gato e rato envolvendo Six (Ryan Gosling), um ex-recluso contratado para se tornar um agente secreto do governo dos EUA, Denny Carmichael (Regé-Jean Page), o líder de uma organização secreta dentro da CIA que se quer ver livre de Six, e Lloyd Hansen (Chris Evans), o sociopata que este contrata para eliminar Six, colocando o amigo e mentor de Six, Fitzroy (Billy Bob Thornton) e Claire (Julia Butters), a sua sobrinha doente, em risco.

O que resulta é um conjunto de algumas partes bem conseguidas perdidas num todo confuso, sem direção, e, em grande parte do tempo, mal escrito. Embora com performances sólidas de Gosling e Thornton, o resto do elenco deixa muito a desejar. A transformação do sóbrio Capitão América num vilão sádico, alegre e perturbadoramente carismático não convence, e Evans demonstra cena atrás de cena que talvez não tenha sido a melhor escolha para o papel. Ainda assim, não chega ao nível de vergonha alheia que sentimos quando vemos Regé-Jean Page no ecrã. Numa performance forçada, sem qualquer ponta por que se lhe pegue, oferece verdadeiros momentos de querer desligar a televisão ou sair da sala de cinema sempre que abre a boca. É verdade, o diálogo não ajuda, é pobre, cliché, e assenta em piadas que não têm piada na sua maioria. Mas ainda assim, aqui vemos a diferença entre um ator como Regé-Jean Page e Chris Evans. A ambos é dado o lado errado da moeda, mas um ainda nos consegue apresentar algo que não nos deixa embaraçados. Talvez ainda demasiado conotado com a visão do herói da América para ser escalado em papéis de vilão sem deixar a pulga atrás da orelha, deixa-nos com vontade de o ver experimentar este tipo de papéis com mais frequência, até que aperfeiçoe o equilíbrio perfeito que a aparência e charme de menino podem fornecer a personagens malignos e sinistros.

O filme dececiona ainda em termos de diversidade racial e de género. Embora no papel, The Gray Man tenha personagens de cor e mulheres fortes em papéis potencialmente substanciais, estas personagens transparecem ter sido poucos cuidadas e até mesmo abandonadas. Tomemos o caso de Ana de Armas, que interpreta uma agente como a de Gosling, no entanto a sua personagem, Dani, é muito menos definida que a dele, chegando mesmo a não ter personalidade e aparecendo apenas quando é precisa para salvar o dia. Enquanto os atores principais têm uma história de fundo (mesmo que a de Evans seja apenas “foi para Harvard”), a sua personagem não tem nenhuma história motivadora de que me consiga lembrar. O argumento falha em dar-lhe personalidade além da obrigatória característica de ser super-durona e mal-humorada quando os homens gritam com ela, o que é um verdadeiro desperdício de uma das maiores estrelas em ascensão do momento. Da mesma forma, Jessica Henwick não tem muito com o que trabalhar como Suzanne, uma agente da CIA que trabalha para Denny e que é constantemente menosprezada por ele e Lloyd.

No geral, The Gray Man é um filme de espionagem padrão, mas em que a verdadeira missão é tentar encontrar as motivações das personagens. Para quem gosta de ver carros a bater uns contra os outros, e pessoas a lutar em sequências mais ou menos bem coreografadas, então este filme é exatamente o que se procura, mas aqueles que procuram uma história envolvente não a vão encontrar tanto aqui. As relações entre as personagens não são desenvolvidas o suficiente para que percebamos as suas escolhas. E é algo que não seria tão difícil de fazer, como vemos na relação talvez mais bem conseguida de todo o filme, a de Six e Claire, no pequeno capítulo que lhes é dedicado a meio do filme, e que sem dúvida é o melhor. Chegaria mesmo a dizer que um filme inteiro focado naqueles pequenos minutos em vez de uma única cena seria capaz de ter tido mais sucesso.

Em vez disso, grande parte do sucesso do filme cai em cima de Gosling e Evans, o que é um peso bastante grande para ser carregado apenas pelos dois, principalmente por duas horas. Mas é exatamente isto. Good guy versus bad guy, uma mulher pelo meio, uma criança em perigo e explosões. Nada de novo ou entusiasmante. Sim, existem algumas sequências de ação eficazes, mas o resto é tão medíocre que não compensa. Parte do problema é que a personagem de Evans nunca é uma ameaça interessante. Embora seja apresentado como um génio louco da tortura, isto nunca é mostrado, chegando mesmo a parecer que ele é, de facto, mau no seu trabalho como vilão.

Se pensarmos três segundos, é compreensível o porquê de Gosling se ter associado ao papel e a Netflix ter aberto as cordas à bolsa para que os irmãos Russos adaptassem o livro de Mark Greaney, com o objetivo de iniciar uma nova megafranquia própria. No entanto, está cada vez mais claro que a Netflix tem pouca supervisão criativa sobre projetos como esses, apenas deixando os criadores fazerem o que querem com o dinheiro e não se importando com o produto final. Afinal de contas, desde que caia no algoritmo e as pessoas assistam, é o que interessa, não importando se serão capazes de nomear uma coisa memorável sobre o file alguns dias depois.

Já confirmado como o primeiro de uma franquia, resta esperar que The Gray Man encontre um pouco de direção e coração em futuros projetos.

The Gray Man - O Agente Oculto
Satisfatório
Realizador: ,
Duração: 02H02M (122 min)
Distribuição: ,
Lançamento: 22 de Julho de 2022
6
  • Positivo
  • Sequências de ação eficazes
  • Performances sólidas de Gosling e Thornton
  • Negativo
  • História não é envolvente
  • As relações entre as personagens não são desenvolvidas
  • Dececiona em termos de diversidade racial e de género
  • Performance muito aquém de Regé-Jean Page
Escrito por:
João Simões
Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.