Integração do filme na franchise
O primeiro filme da franchise, Kingsman: Serviços Secretos, segundo Matthew Vaughn, um dos criadores deste universo cinematográfico, foi realizado com o intuito de ser um filme de espionagem divertido, em vez de se levar demasiado a sério. E não há dúvida que tal foi cumprido. Deste modo, é importante com qualquer filme desta franchise não ir com a expectativa que se vai ver algo sério e realista. Deve-se aproveitar a experiência e não pensar nem questionar muito o assunto. Algo certo ao ver estes filmes é que, apesar de pouco realistas, são uma ótima forma de entretenimento e The King’s Man: O Início não é exceção.
Enquanto os dois primeiros filmes seguem Eggsy a tentar entrar na organização de espionagem Kingsman e, colocando numa forma muito simplificada, as suas aventuras e obstáculos para salvar o mundo, este filme é uma prequela, mostrando as origens da organização e o que a levou a funcionar como nos filmes consequentes.
O filme passa-se no seio da Primeira Guerra Mundial e segue o Duke Orlando Oxford (Ralph Fiennes), um veterano que se tornou pacifista, enquanto tenta arranjar soluções para travar o avanço da guerra. Ele recorre ao auxílio de dois aparentemente funcionários, Shola (Djimon Hounsou) e Polly (Gemma Arterton), e do seu filho, Conrad Oxford (Harris Dickinson), que deseja se juntar à guerra apesar de o pai estar a tentar impedi-lo.

No entanto, existe uma organização composta por vários vilões que vai contrabalançando os avanços dos heróis. Esta organização é liderada por um escocês desconhecido por parte da audiência até ao confronto final do filme. O escocês, com o objetivo de destruir o poder e influência de Inglaterra, faz de tudo para que esta guerra continue até que os aliados percam, causando caos no caminho. Para assegurar os seu planos, na sua organização existem pessoas influentes de diversos países, sendo estas personagens históricas como Rasputin (Rhys Ifans), Gavrilo Princip (Joel Basman), Mata Hari (Valerie Pachner), entre outros.
Personagens e contexto histórico onde se enquadra
Conrad, sendo jovem e alguém que levou uma vida muito protegida, considera que se alistar e servir o país é um dever, é a verdadeira e a melhor forma de ajudar e defender o seu país. Por sua vez, Orlando, após ter visto de antemão mortes e o que a guerra faz aos sobreviventes, é uma pessoa contra qualquer conflito e acredita que as consequências desta são demasiado elevadas para poder se considerar uma honra dar a vida pelo país. Em adição, após a morte da sua mulher, este promete proteger Conrad e impedir que algum mal lhe aconteça. Orlando acaba por ser muito protetivo e fazer tudo para o impedir de se juntar ao exército e para o fazer mudar de ideias, tornando o filho na sua fraqueza e a pessoa pela qual o nobre faria qualquer coisa, mesmo se tivesse de ir contra os seus ideais.
Todavia em nenhum momento se questiona o quão se importam um com o outro e é possível ver o o respeito mútuo, apesar de terem ideais e objetivos opostos. A forma de como é retratada a relação de ambos e a complexidade desta é dos aspetos que se destaca mais positivamente e é o coração do filme.

Contrastando a atenção que deram aos Oxford, as restantes personagens não são desenvolvidas, sendo apresentadas de forma muito superficial, apesar do potencial que têm.
Shola e Polly são personagens que apenas estão presentes para ajudar o duque, não sabendo nada sobre a vida destas fora do seu envolvimento com Orlando. Desta forma, o espectador, ao não conhecer e não ganhar empatia ou qualquer emoção com as personagens, não se irá importar do destina destas. Note-se que, tendo em conta que o enredo está um pouco por todo o lado, tendo imenso a acontecer (alguns aspetos que nem eram necessários e que podiam ter sido deixados de parte sem mudar o filme fundamentalmente) também não seria possível desenvolver mais estas personagens.
Por sua vez, o vilão principal (o escocês) é tão superficial, unidimensional e excessivo, sendo mais cómico que ameaçador, contribuindo para uma discrepância no tom geral do filme. Nas instalações lançadas previamente, como davam um grande foco na comédia, algo que neste não tão recorrente, era mais fácil aceitar os vilões com aquelas características, visto que não ia contra o tom da cena anterior.
Em adição, tendo em conta que a história durante muito tempo se passa em localizações frequentadas por pessoas de uma classe elevada e não se enquadra no contexto da atualidade, é de se louvar os cenários, adereços e os seus pormenores. Apesar de não poder comentar no quão precisos e realistas são devido a falta de conhecimentos nessa área, os cenários são tão compostos que permitem uma melhor imersão no filme. Algo que me sobressaiu foi o palácio russo onde os heróis se encontram com Rasputin. O palácio era deslumbrante e, honestamente, uma obra de arte, dando para ver o esplendor e o cuidado com os detalhes arquitetónicos que a classe rica tinha nas suas construções.
Não obstante, o filme reescreve o contexto de muitos eventos reais durante a guerra, o que, consequentemente, acaba por apresentar uma visão da guerra é um pouco simplista.
Um estilo inconfundível e único
Este filme, como os anteriores, tem um estilo muito específico. A coreografia nas cenas de ação é incrível e diversa. A forma de como lutam, a maior parte das vezes, parece uma dança, sendo que cada personagem tem uma forma distinta de o fazer e é possível identificar diferentes estilos que por sua vez contribuem para a caracterização das personagens. Sendo alguém que por vezes em momentos de ação se cansa de ver, neste filme são tão únicas e criativas, apesar de não muito realistas, que são emocionantes. O filme também apresenta umas cenas em câmara lenta dispensáveis mas nada que distraia e que seja algo bastante frequente como o nos filmes de Zack Snyder. Assim, muitas cenas de ação acabam por ser um espetáculo visual, apesar de sangrento.
No entanto, da mesma forma que dão tudo o que têm nestas cenas, por vezes o filme ultrapassa o limite do aceitável, mesmo indo com uma mente aberta. Tomam certas liberdades fora do convencional e difíceis de aceitar mesmo para filmes de espionagem. Em particular, uma cena específica com Rasputin e o duque de Oxford que me retiraram do filme e me deixaram a tentar perceber e justificar o que estava a acontecer e a vaga lógica por de trás.
Valerá a pena assistir o filme?
Apesar de ter um estilo semelhante aos outros filmes da franchise, The King’s Man: O Início consegue se distinguir destes e não necessitar dos filmes anteriores para fazer sentido e para poder ser apreciado. Como já referido, também dá menos foco na comédia, sendo este transferido para a relação de Orlando e Conrad e para a guerra. Consequentemente, por vezes torna o tom do filme confuso, tendo situações excêntricas ao ponto de cómicas seguidas de momentos dramáticos.
Apesar do melhor da franchise continuar a ser o primeiro capítulo e esta prequela não ser tão divertida como as instalações anteriores, aconselho a ir ver o filme com amigos com o objetivo de se divertirem. Pode não ser memorável mas será uma noite bem passada de qualquer forma.
Atualmente encontra-se planeado uma sequela (Kingsman: The Blue Blood) e um spin-off (Statesman), esperemos que estes próximos mantenham o grau de entretenimento, que sejam originais e que também se distingam.