Há filmes que não precisam de reinventar a roda para funcionar. The Love Hypothesis sabe exatamente o que quer ser: uma comédia romântica divertida, leve, cheia de química e com aquele tipo de romance que nos faz revirar os olhos enquanto sorrimos por dentro.
Adaptar um livro que conquistou milhões de leitores nunca é tarefa fácil. Adaptar The Love Hypothesis, de Ali Hazelwood, talvez seja ainda mais complicado: afinal, estamos perante uma história que nasceu de fan fiction inspirada em Rey e Kylo Ren e que acabou transformada num fenómeno literário.
A boa notícia? A adaptação da Prime Video percebe exatamente o que tornou esta história tão popular e entrega uma comédia romântica que não tem medo de abraçar os clichés do género e, ao mesmo tempo, divertir-se com eles.
O filme acompanha Olive Smith, uma doutoranda de Stanford completamente dedicada à investigação e com uma vida pessoal que está longe de ser propriamente um sucesso científico. Quando decide ajudar a melhor amiga, Anh, a aproximar-se de Jeremy, acaba por inventar um namorado.
O problema? Anh quer conhecê-lo. Sem tempo para pensar, Olive beija o primeiro homem que encontra. Esse homem é Adam Carlsen. Professor, investigador e conhecido no departamento por ser extremamente exigente e pouco simpático, Adam é praticamente o equivalente académico de Kylo Ren. Só que, em vez de um sabre de luz, tem uma bata de laboratório e uma reputação capaz de assustar metade de Stanford.
Quando Adam percebe que também pode beneficiar de um namoro falso, os dois estabelecem um acordo. Naturalmente, sabemos exatamente onde isto vai dar. E é precisamente aí que The Love Hypothesis funciona.
Ciência, romance e muita química
O argumento não inventa nada de novo. Temos fake dating, enemies-to-lovers, proximidade forçada, um protagonista aparentemente impossível de conquistar e duas pessoas que começam por fingir sentimentos até perceberem que talvez esses sentimentos não sejam assim tão falsos.

Mas uma boa rom-com não precisa necessariamente de reinventar o género. Precisa de personagens por quem queremos torcer. E é aqui que Lili Reinhart e Tom Bateman fazem a diferença. A química entre os dois protagonistas é provavelmente o maior trunfo do filme. As interações começam por ser desconfortáveis e engraçadas, mas a relação vai evoluindo de forma suficientemente natural para acreditarmos que aquela atração pode realmente transformar-se em algo mais.
Olive e Adam funcionam porque, apesar de toda a situação absurda em que se encontram, conseguimos perceber as fragilidades que existem por detrás das suas personagens. Ele não é apenas o professor carrancudo e ela não é apenas a protagonista desastrada. À medida que a relação evolui, vamos descobrindo duas pessoas bastante solitárias que acabam por encontrar uma na outra alguém com quem podem baixar a guarda.
O filme consegue equilibrar bastante bem os momentos mais cómicos com aqueles momentos em que a relação começa realmente a ganhar profundidade. E Tom Bateman consegue transformar Adam daquele professor que inicialmente parece saído diretamente de um episódio de Star Wars num personagem muito mais vulnerável do que aparentava.
Entre laboratórios e referências a Star Wars
Falando em Star Wars: quem conhece a história por detrás de The Love Hypothesis vai provavelmente divertir-se ainda mais. O livro nasceu originalmente de uma história de fã inspirada na relação entre Rey e Kylo Ren/Ben Solo, e o filme não esconde completamente essas raízes. Existem vários pequenos easter eggs e referências que funcionam quase como um “piscar de olho” aos fãs que acompanharam todo esse percurso.
É quase impossível não olhar para Adam e pensar: “Este homem tem mesmo energia de Kylo Ren”. E, tendo em conta a origem de tudo isto, não parece ser coincidência.
A melhor relação pode nem ser a romântica
Apesar de o romance estar obviamente no centro da narrativa, um dos aspetos mais interessantes do filme é a importância dada à amizade entre Olive e Anh.
É muito fácil uma história destas ficar completamente centrada no casal principal, mas aqui a amizade feminina tem um papel realmente importante. Anh não é apenas “a melhor amiga da protagonista”; é uma personagem com personalidade própria e a relação entre as duas dá uma motivação muito mais interessante à história.
Além disso, Rachel Marsh e Jaboukie Young-White ajudam bastante a manter o filme divertido. As reações deles às situações cada vez mais absurdas do namoro falso são responsáveis por alguns dos melhores momentos cómicos. Aliás, algumas das melhores gargalhadas surgem precisamente das reações das personagens secundárias ao namoro falso.

E quem leu o livro?
Se há um elemento que poderia ter recebido mais atenção é precisamente o lado científico. O livro aproveita bastante mais o ambiente académico e as dificuldades enfrentadas por Olive enquanto mulher numa área dominada por homens. Na adaptação, essa componente acaba por ser simplificada para dar mais espaço ao romance e à comédia.
O mesmo acontece com o conflito académico que envolve Adam e Olive, que perde algum peso quando comparado com o material original. Não chega a prejudicar a experiência, mas é provavelmente um dos aspetos em que os leitores poderão sentir mais falta do livro.
Por outro lado, o filme utiliza esse espaço para desenvolver melhor as relações entre as personagens e, sobretudo, a amizade entre Olive e Anh. É uma troca que faz sentido para o formato escolhido.
Uma rom-com que sabe aquilo que é
No fundo, The Love Hypothesis é uma espécie de carta de amor às próprias comédias românticas. O filme sabe que estamos à espera do momento em que o casal vai apaixonar-se. Sabe que o professor carrancudo vai revelar o seu lado sensível. Sabe que o namoro falso vai deixar de ser falso. E não tenta esconder isso. Em vez disso, abraça esses clichés e utiliza-os para criar uma experiência divertida e confortável.
Não é cinema que pretende mudar o mundo. É uma rom-com para ver numa noite tranquila, desligar o cérebro durante umas horas e deixar-nos envolver por duas personagens que têm química suficiente para fazer qualquer hipótese científica parecer plausível.

Veredicto
The Love Hypothesis não vai revolucionar o género das comédias românticas. E também não precisa. É um filme que conhece perfeitamente os clichés que está a utilizar e diverte-se com eles. Tem protagonistas com química, personagens secundárias carismáticas, situações suficientemente absurdas para nos arrancar umas gargalhadas e romance suficiente para satisfazer quem veio aqui precisamente à procura disso.
É leve, divertido, romântico e muito fácil de ver.E talvez essa seja precisamente a sua maior qualidade: não tenta ser mais complicado do que precisa de ser. É romântico sem ser demasiado meloso, divertido sem exagerar e suficientemente geek para nos lembrar que, por vezes, a melhor história de enemies-to-lovers pode começar num laboratório.