Ou por outras palavras, quantas vezes é que se pode contar a mesma piada até deixar de ter graça?…
A nova temporada de The Marvelous Mrs. Maisel já chegou à Amazon e retoma onde nos deixou na terceira temporada, há mais de dois anos. Talvez tenha sido a longa espera, ou talvez simplesmente a série já tenha dado o que tinha para dar, mas a nova temporada de The Marvelous Mrs. Maisel falha no novo material que nos traz. Ou antes, falha no mesmo material, visto que, na verdade, parece que estamos sempre a ver mais do mesmo.
Logo nos primeiros episódios da nova temporada, Miriam “Midge” Maisel. a dona de casa que virou comediante no final dos anos cinquenta e agora no início dos anos sessenta, é expulsa de um clube por ofuscar os comediantes masculinos que foram contratados em vez dela. Bêbeda e amargurada na calçada, aproxima-se de possíveis clientes com a oferta de um tempo bem passado em troca de dinheiro. Os polícias, como seria de esperar, não percebem que o seu tempo bem passado seria a comédia, e acabam por prender Midge por solicitação, enquanto a sua empresária horrorizada Susie (Alex Borstein) exclama: “Porra, aqui vamos nós outra vez!”

É exatamente este sentimento que fica nos fãs, o de que não se sai da cepa torta. Enquanto a terceira temporada debruçava-se sobre a busca por mudanças, cheia de reviravoltas, situações constrangedoras e que avançavam a série de uma forma ou de outra, a nova temporada pega em todo esse estudo de personagem e circunstância e deita tudo para o lixo. Midge decide que já está cansada de tentar ter sucesso na comédia nos termos que não sejam os seus. A rotina “tight 10” que tanto tempo passou a aperfeiçoar nas temporadas anteriores é descartada. Quer ser ela própria em palco, não ser o ato de abertura, mas a cabeça de cartaz. Isto traz uma nova temporada que recicla muito material na tentativa de fazer algo inovador, como num verdadeiro projeto de bricolage, mas que, essencialmente, falha no seu objetivo. O que acaba por estar no ecrã é algo menos empolgante do que as primeiras temporadas, embora um pouco mais complexo na sua abordagem, e sem dúvida mais arriscado no material.
Onde a série nunca desilude, isso é um facto, é no elenco. Desde Rachel Brosnahan como Mrs. Maisel a Michael Zegen como Joe, que aos poucos consegue ganhar o carinho do público, as várias personagens lá vão dizendo algumas falas engraçadas e oferecendo momentos divertidos. Mais uma vez, Midge enfrenta o desrespeito de ser uma mãe solteira e os desafios de conseguir que a levem seriamente como comediante. O que, mais uma vez, deixa a desejar é a forma como a série que tanto se esforçou para empurrar as suas personagens para a frente, rodeando-as de novos desafios e conflitos até interessantes na sua conceção, acaba por se refugiar quase exclusivamente no que já existia para começar uma nova temporada. Talvez seja este o objetivo, o de ilustrar que o passado sempre estará lá, e que quando as coisas correm mal é sempre um lugar ao qual às vezes nos vemos forçados a voltar, mesmo contra a nossa vontade. Se assim fosse a sua intenção, o argumento falha de novo. A impressão que fica é que as coisas que gostamos sobre a série continuam, e as coisas que não gostamos também, numa espécie de loop do qual já deveríamos ter saído.

Para ser franco, parece que The Marvelous Mrs. Maisel se tornou aquela série que se vê porque se começou quando era boa e agora queremos ver como vai acabar. Ainda assim, nem tudo é uma desilusão. Os episódios ao longo das quatro temporadas continuam a ser um espelho sobre a misoginia que uma comediante feminina enfrenta num mundo maioritariamente dominado por homens e, por extensão, questões persistentes que existem até hoje. Curiosamente, a Amazon anunciou na véspera desta estreia que a próxima temporada será a última, o que deixa espaço para muita coisa, incluindo, esperamos, um final digno e satisfatório a um conjunto de personagens que bem o merece.