The Way of Kings (The Stormlight Archive)

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O melhor da fantasia moderna

Não foi há muito tempo, que tentei convencer-vos a ler a trilogia Mistborn: Nascida das Brumas (editada pela Saída de Emergência em Portugal), e desta vez, estou de volta para louvar o magnum opus do Lord Ruler da Fantasia Moderna, Brandon Sanderson. Para quem gosta deste género literário, o nome não é desconhecido, e dentro da sua prolífica bibliografia, a sua saga mais celebrada é sem dúvida The Stormlight Archive (O Arquivo das Tormentas, livremente traduzido), que arrancou em 2011 com o gigante volume The Way of Kings (O Caminho dos Reis).

https://www.cafemaisgeek.com/literatura/mistborn-5-razoes-para-ler-esta-epica-saga/

Com 1120 páginas, The Way of Kings foi na altura o maior e mais ambicioso livro do autor, um livro que veste e exibe sem vergonha a inspiração em universos como Dungeons & Dragons e Roda do Tempo (de Robert Jordan, mais tarde finalizado por Sanderson), criando um épico de fantasia que rivaliza qualquer clássico tolkieano. Apesar das fortes inspirações, Sanderson preencheu as inúmeras páginas com um mundo totalmente diferente de tudo o que já leram, com das melhores personagens do género (e arrisco a dizer, com algum viés, de toda a literatura especulativa) e com ação bombástica e magia quase que científica que os que conhecem o autor sabem não pode faltar.

“Szeth-son-son-Vollano, Thruthless of Shinovar, wore white the day he was to kill a king”

São estas as primeiras palavras do epilogo deste livro, que brilhantemente abrem as cartas a toda a narrativa que se vai passar daqui em diante. Szeth, um assassino com poderes misteriosos, assassina o monarca do poderoso reino bélico de Alethkar, sob ordens dos Parshendi, uma raça de humanoides pouco amigável, cujas intensões são ainda desconhecidas.

As ações de Szeth levam a uma resposta firme por parte de Alethkar, que sendo um reino cuja cultura se sustenta em guerrilhas, avança para vingar o rei nos Shattered Planes, uma zona de Roshar repleta de planícies e abismos, onde para atravessar são necessárias pontes e onde habitam monstruosas criaturas, tornando o campo de batalha num jogo de estratégia, paciência e risco, estendendo o conflito e o drama durante anos.

É nesta guerra que passamos a maioria do tempo com o nosso protagonista, Kaladin que sempre sonhou em juntar-se às batalhas nos Planes, mas que ao ser traído, vê-se nela não como soldado, mas como um escravo. Como escravo, Kaladin experiência das piores das situações imagináveis (que não detalho aqui para não estragar todas as surpresas), descendo cada vez mais num poço depressivo. A sua única salva-vidas é um pequeno espírito do vento (windspren) chamada Syl, que com o seu humor e carisma, qual Sininho de Peter Pan, lhe traz a vontade de viver necessária para continuar todos os dias.

A personagem de Kaladin também é explorada através de alguns flashbacks, que leva o leitor a conhecer a complexidade das emoções que moldam esta personagem. Embora frustrante por vezes os ciclos de negatividade de Kaladin, Sanderson não tem medo de pintar realisticamente um cenário de saúde mental.

Para além de Kaladin, neste livro também temos mais dois grandes POVs (pontos de vista): Shallan e Dalinar, que à semelhança de Kal, sofrem dos seus problemas, tem os seus segredos, e os seus arcos desenvolvem de forma tão brilhante, que é difícil escolher um momento preferido apenas. Dalinar em especial, conquistou o meu coração, como velho general de guerra, que farto das atrocidades que cometeu no passado, quer uma resolução que parece não ter fim à vista. Este personagem tem também visões, que exploram mais a mitologia do mundo e os temas de jornada vs destino, que é o tema que o livro se assenta em.

Passaria esta análise toda a falar do quão magníficos são os arcos de cada um dos três personagens principais, ou até de outros secundários que por vezes só tem alguns parágrafos de dialogo. Mas para ser breve, basta dizer que Sanseron prova mais uma vez a sua mestria em explorar personagens com problemas de saúde mental, que mesmo inserindo num contexto épico e fantástico, não deixa de ser realista, esculpindo personagens que é impossível não simpatizar com momentos incrivelmente emocionantes ao longo do seu desenvolvimento na narrativa.

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Com mais de 1000 páginas, não deve ser surpresa para ninguém que o começo do livro seja algo lento e com pouca coisa a acontecer. Estes momentos dão-nos a conhecer os personagens e o mundo, e apesar de serem intercalados com algumas revelações e momentos de ação, é só no segundo quarto do livro, que finalmente ficamos agarrados à história e a torcer pelos personagens. Se leste as primeiras 200 páginas e não ficaste convencido, imploro-te que tentes mais um pouco, suspeito que vais adorar no final. Especialmente porque à semelhança doutros livros do Sanderson, o final explosivo de The Way of Kings, vai te fazer correr para pegar no próximo volume.

“Does one deserve to have evil done to her by consequence of putting herself where evil can reach her?”

Como disse anteriormente, a narrativa passa-se toda em Roshar, um dos planetas do Cosmere de Sanderson, um universo conectado onde muitas da suas histórias tem lugar, havendo mesmo pequenos crossovers e referências ao estilo de MCU. Em Roshar, tempestades moldam o mundo e as culturas, pois ser apanhado desprotegido no meio de uma tempestade, é uma sentença de morte.  Deste modo, a flora e a fauna neste país evoluíram de forma a adaptarem-se ao clima grotesco: pequenas plantas desenvolvem pequenas carapaças para se proteger; a erva move-se e é dinâmica ao toque; a maioria dos animais são meio-crustáceos, ou hibernam durante a tempestade para não serem arrastados durante os altos ventos. Tudo isto forma o melhor que The Way of Kings tem: a construção do mundo. Também as culturas nos diferentes países de Roshar são influenciadas e moldadas pelas tempestades, que torna este mundo tão original e cheio de vida, que é imersivo ao ponto de custar a sair das páginas e voltar ao mundo real. Para os fãs de arte nos livros e para ajudar na visualização destas criaturas tão diferentes, o livro está também recheado de arte, que se integra com a narrativa de forma muito divertida e que nunca antes tinha visto.

Para além da fauna e flora, este mundo é também povoado por pequenos espíritos misteriosos que aparecem e reagem com o mundo e as personagens, os spren. Os spren são nada mais nada menos que a componente mais criativa e excitante de explorar neste mundo. Estas criaturas estão ligadas a tudo o que podemos imaginar na natureza ou emoção humana, sendo todos fisicamente diferentes uns dos outros, quer sejam spren que aparecem no fogo (firespren), na chuva (rainspren), ou quando alguém sente dor (painspren), ou há algo a apodrecer (rotspren). Com tantas possibilidades, é um deleite descobrir mais destes espíritos.

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“The purpose of a storyteller is not to tell you how to think, but to give you questions to think upon.”

“Philosophy? What good is that?” Isn’t it the art of saying nothing with as many words as possible?”

Brandon Sanderson não é conhecido por ter a prosa mais artística e floreada, o que é muito bom ponto de entrada para os novatos na literatura, mas que pode afastar quem procura algo mais artístico e profundo. Porém, em The Way of Kings, apesar de continuar acessível, traz a sua melhor escrita, com frases e metáforas que nos deixam a pensar por várias semanas depois da primeira leitura. Em particular, a exploração de ética, moralidade, filosofia e religião que elevam o livro de apenas escapismo fantástico, a algo incrivelmente enriquecedor e provocador. É de salientar que se estas reflexões não são o que procuram num livro de fantasia épica, há momentos que se podem alongar e tornar a leitura pesada, mas creio que todos, mesmo os que procuram apenas batalhas épicas, iram apreciar a profundidade dos temas aqui expostos.

“And so, does the destination matter? Or is it the path we take? I declare that no accomplishment has substance nearly as great as the road used to achieve it. We are not creatures of destinations. It is the journey that shapes us. Our callused feet, our backs strong from carrying the weight of our travels, our eyes open with the fresh delight of experiences lived.”

Se ainda aqui estão depois desta longa análise, sumarizo que apesar de longo e às vezes denso, The Way of Kings é do melhor que a fantasia moderna tem para dar. Não só Sanderson cria um planeta extremamente original rico e misterioso, como usa incríveis personagens para explorar temas profundos e difíceis. Não tenham medo das incontáveis páginas porque o que importa é a viagem e não o destino, mas felizmente, com Sanderson nem o destino desilude.

The Way of Kings

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Saga/Série: The Stormlight Archive
Distribuidora:
9.5
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Rodrigo Fernandes
Biólogo em ascensão que usa a ficção como escapatória aos aborrecidos artigos científicos. Sou o clássico geek de óculos que adora ler sobre feiticeiros e guerras em mundos imaginários. Se não estiver agarrado a um livro de fantasia épica, estarei com certeza colado à mais recente série de TV ou com a mão no comando da PS. Ocasionalmente também me aventuro pelo mundo das animes e mangas. A minha missão de vida é forçar toda a gente a ver e adorar Avatar: A Lenda de Aang e estou sempre aberto a discutir porque é que os Lannister são a melhor casa de Westeros.

Colaboraram neste artigo

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