Uma Última Oportunidade – O livro de estreia de Betty Cayouette promete muito, mas entrega pouco

Aviso de conteúdo sensível. Analisamos o romance de estreia de @bettysbooklist, entre um reencontro romântico em Cinque Terre e um tema delicado tratado sem o cuidado que merecia.

Trigger warning: agressão sexual

Quem anda pelo mundo do BookTok/Bookstagram provavelmente lembrar-se-á da booktoker/bookstagrammer @bettysbooklist, que após a pandemia começou a fazer vídeos a descrever o enredo de livros na primeira pessoa como se lhe tivesse acontecido a ela.

A primeira vez que a Betty apareceu no meu algoritmo, e depois de rapidamente perceber o conteúdo que fazia, achei refrescante a forma como ela dava as recomendações de livros, pois era diferente de tudo o resto que via. Dessa forma, quando ela anunciou o livro de estreia, que posteriormente foi editado em Portugal pela Bertrand, soube logo que tinha de o comprar uma vez que considerei o enredo promissor.

Apesar de já ter o livro há algum tempo, só este ano peguei nele para tentar sair de uma ressaca literária. A história parecia ser simples o suficiente: uma supermodelo (Emerson) que, por qualquer motivo, cortou abruptamente relações com aquele que era o seu melhor amigo (Theo) e a pessoa por quem era apaixonada. Passados dez anos, ela recebe um alerta no telemóvel relativa ao pacto que ambos fizeram sobre casarem um com o outro caso ainda não estejam casados com ninguém. Este é o pontapé de saída para o resto dos acontecimentos que se desenrolam daí para a frente. Emerson tem uma breve crise existencial em que percebe que o Theo é o homem com quem ela deve ficar, e move mundos e fundos para provocar um reencontro entre ambos numa sessão fotográfica de quatro dias em que ele é o fotógrafo. Sessão essa que é em Itália, no conjunto de vilas Cinque Terre.

O livro é contado da perspectiva dos dois (dual point), e através de flashbacks ao longo da história para que se possa ir percebendo como se conheceram, como a amizade se desenvolveu, até ao momento em que se separam através de uma decisão unilateral. Aquela que é suposta ser a reviravolta (o motivo pelo qual deixaram de estar na vida um do outro antes do livro começar) não é surpresa de forma nenhuma, pois a autora tem uma nota antes do primeiro capítulo onde revela ter sido alvo de uma agressão sexual e como lidou com a mesma. Talvez precisamente por esse mesmo motivo, eu esperava que quando esta revelação fosse feita no livro, fosse mais aprofundada e tratada com um maior cuidado, de forma a poder sensibilizar os leitores a perceberem este tipo de situações pelos olhos de quem passou por ela. Isso não aconteceu. Durante toda a duração do livro, os personagens parecem sempre pouco desenvolvidos e de certa forma pouco dimensionais, principalmente quando a história é contada no tempo presente. Ainda que não seja nenhuma surpresa que ficam juntos no final, pois é parte do clichê deste género literário, sinto que poderia ter sido mais desenvolvido a forma como as personagens lidam com o trauma, a vergonha e culpa que sentem. O que acontece em vez disso é uma panóplia de conversas ouvidas pela metade que provocam mal entendidos, recusa em comunicar as coisas mais básicas, e o caminho para o crescimento no acto final do livro é substituído por um pedido de casamento num aeroporto da forma que só posso descrever como sendo das coisas mais caricatas que já li.

Considerando que este é o livro de estreia da escritora, tentei gerir as minhas expectativas, que ainda assim eram altas, e ainda assim acabei a última página a sentir-me defraudada.

Uma última oportunidade

One last shot
Lançamento: 2024-08-15 • Ano: 2024
Distribuidora:
4.5
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Andreia Santos
Escritora wannabe nas horas vagas. Se me puserem um livro na mão, ou a ver filmes/séries, é o suficiente para ficar entretida. Um dos meus objectivos é ter uma biblioteca em casa, e dizem que para isso são precisos no mínimo mil livros.

Colaboraram neste artigo

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