PlayStation 5
WRC Generations – Rally requentado
Publicado a 26 Nov, 2022

Ainda sou do tempo em que a referência em rally tinha o nome de Colin McRae associado a cada novo título que era lançado ano após ano. Foram várias as horas que passei a jogar o primeiro e segundo títulos na velhinha PlayStation. Mas é certo que desde então, já muito mudou. Não só a oferta é maior, como o Colin McRae já não está entre nós há mais de 15 anos. Como também aquilo que se espera de um título deste género está em níveis outrora inimagináveis. Mas será que WRC Generations consegue chegar lá perto?

Numa daquelas jogadas que só o destino consegue fazer, parece que me voltei a cruzar com o universo dos rallies no fechar de um ciclo para a World Rally Championship (WRC). O primeiro jogo de rally que alguma vez joguei era da Codemasters, que por sua vez adquiriu os direitos da WRC e são eles que, ao tocar as doze badaladas no final deste ano, passam a ser os novos detentores desta franquia. Algo que nos últimos sete anos esteve nas mãos da Kylotonn. Este Generations é assim a última cartada deste estúdio.

É certo que em quatro gerações muito mudou na indústria e outros títulos do género passaram-me pelas mãos. Uns simuladores, outros mais arcada. Mas jogos de condução sempre foram algo que tive algum interesse, daí que seja com relativa curiosidade que me meti à frente de um volante para perceber em que ponto estamos.

A confusão depressa me atinge como se fosse a mais de 100 à hora contra uma árvore. Literalmente. É certo que há uma curva de aprendizagem, principalmente quando estamos a falar de um simulador, mas não esperava um abre olhos tão repentino. E quando penso que estou a apanhar-lhe o jeito, surge algum outro condicionante que me volta a atirar para fora da pista em dois segundos.

Modéstia à parte, sou capaz de pegar no volante e conduzir um carro com relativa destreza, há o ocasional uso dos rails para me ajudarem a fazer uma curva mais complicada, mas não ao ponto de usar o travão de mão e ser garantido que o meu carro ia dar uma volta de 180 graus. Isto tanto acontecia a controlar veículos com um volante como com um comando. Algo não estava a bater certo e precisava saber o quê.

Portanto, o que raio andava a Kylotonn a fazer para me estarem a deixar completamente frustrado num estalar de pistões? Não foi preciso procurar muito para obter a minha resposta. Peço já desculpa pela longa introdução e pelo que ainda falta dizer, mas eu vou lá chegar, prometo. Isto, era o que eu dizia sempre que começava uma nova corrida…

Ao que parece, do WRC 10 para o Generations, as definições por defeito de cada veículo, aquelas que podemos configurar até ao mais ínfimo pormenor, e que faz parte de todo e qualquer videojogo que se digne a ser chamado de simulador de condução, estavam configuradas para valores de tal forma absurdos que era impossível conseguir conduzir um carro em linha reta sem haver um qualquer deslize por termos pestanejado. Quis perceber o quão diferente realmente isto era e decidi retroceder e experimentar também o WRC 10. Não estava de todo preparado para aquilo que encontrei.

Voltei a ter um sorriso na cara! Eu conseguia conduzir de novo, bastaram poucos minutos para me estar a divertir genuinamente, algo que não estava a conseguir em Generations. É certo que podia ter configurado tudo, acho que é isso que todos querem, mas há que ter um certo senso comum na introdução a um videojogo, e na forma como o mesmo é entregue ao jogador. Não queremos a papinha toda feita, mas também não queremos que seja de tal forma incontrolável que mesmo antes de saber como se acelera, temos de configurar o peso do carro, a tensão dos amortecedores, que tipo de pneus levar, entre tantas outras coisas que estão ao nosso dispor. Perderam mais tempo a explicar como funciona um calendário, do que a própria condução. E muito menos se faz estas mudanças, entre títulos, para pior! É que além de complicarem ao extremo, desnecessariamente, quando efetivamente conduzia em Generations não tive sensação alguma de velocidade, mas nos poucos minutos que estive em WRC 10, foi instantâneo.

Mesmo ignorando isto, ao continuar a olhar para este título de 2022, comecei a perceber que algo ainda de mais estranho se passava ali. Tudo o resto, era literalmente igual ao jogo de 2021. Sem tirar nem pôr. Os menus eram iguais, o conteúdo do jogo era igual, o percurso que a carreira te leva é igual, e visualmente não estamos perante nada de muito surpreendente. O que há efetivamente em Generations que faça sentido para a sua existência?

Tudo o que é esperado de um simulador, está lá. É essencial afinar cada carro, adaptar tudo ao tipo de pavimento e corrida que vamos fazer, vários carros oficiais, assim como diferentes pistas por todo o mundo, Portugal incluído. Também podemos escolher equipas oficiais, tanto de Rally1 como de Rally2, assim como do tier Junior, e ainda relembrar outros tempos com a vertente histórica, onde veículos e equipas de outras décadas fazem a sua presença.

Há um modo carreira, multiplayer e também corridas isoladas, se não queremos perder tempo em algo mais. Na vertente competitiva existem as ligas, que podem ser disputadas a solo ou a pares, que são ganhas por pontos e os jogadores vão subindo na liga por vários tiers, que vão desde o Novato a Legend.

Isto tudo enquanto temos também de desbloquear melhorias que nos ajudam nas corridas, bem ao estilo de um qualquer RPG, gerir toda uma equipa, contratar profissionais, definir estratégias, entre mais uma panóplia de conteúdo. Muito honestamente, toda a parte de gestão da equipa, é uma dor de cabeça. Temos de lidar com este modo “manager”, que dá uma certa bipolaridade ao jogo, quando podíamos estar totalmente focados nos veículos e em conseguir melhorar nas corridas em si. Até podia existir algo mais leve nesta vertente, mas quando parece que estou a jogar um jogo dentro de um jogo, questiono-me se alguém tira algum prazer disto e se realmente o quer.

E apesar de tudo, continuo a questionar-me o porquê de haver um Generations. Surgiram mais carros que no título anterior, incluído a presença de modelos híbridos (uma das novidades do campeonato oficial deste ano), mais percursos, mais equipas, mas tudo isto é esperado que aconteça. O que não é esperado é que estejamos perante um DLC glorificado, em que as diferenças entre o título anterior e o mais recente se resumem a número e atualizações para acompanhar a nova temporada real. Acho que fico menos chocado quando vejo isto acontecer em outros jogos de desporto, mas sentir que não houve evolução alguma entre ambos, quando a competição mostra melhorias significativas em cada iteração, é algo que me deixou com um gosto amargo na boca.

Ainda assim, é um bom jogo? Sim, de certa forma é. Tem um visual competente que, como mencionei, não surpreende mas faz na perfeição o que lhe é pedido. Existe variedade e personalização ao extremo. O desafio e entusiasmo em correr em percursos reais e conseguir dominá-los, está lá. Tem tudo para agradar aos verdadeiros amantes de rally. Porém, isto é o que se podia dizer de WRC 10. Usar exatamente a mesma descrição em dois jogos diferentes é apenas dececionante, e a Kylotonn acaba assim a sua prestação em WRC com a fama algo manchada.

Esta análise foi possível com o apoio da Upload Distribution!
WRC Generations
WRC Generations
Satisfatório
Distribuição:
Estúdio:
Lançamento: 3 de Novembro de 2022
6.5
  • Positivo
  • Bastante variedade de conteúdo
  • Percursos de corrida muito bem conseguidos
  • Carros e equipas atualizadas
  • Negativo
  • Vertente de gestão demasiado convoluta
  • Uma mera atualização em relação ao título anterior
  • Jogabilidade aquém da expetativa
Escrito por:
Marco Almeida
Viciado em tudo o que conte uma boa história, desde cinema a videojogos, séries a banda desenhada, e até um bom jogo de tabuleiro. Tudo é motivo para me atirar de cabeça a universos alternativos. E já agora, o Scorsese está errado; o MCU é o pináculo da sétima arte! Quem respira, concorda!