Yars Rising surge inesperadamente como uma homenagem ao clássico Yars’ Revenge da velhinha Atari 2600, mas com uma abordagem moderna que mistura ação, elementos metroidvania e hacking. Embora à primeira vista pareça um jogo simples e linear, rapidamente se revela uma experiência mais variada e envolvente à medida que avançamos.

Uma homenagem, mas não só
Um dos pontos altos do jogo é mesmo o sistema de hacking, que é tanto uma referência ao jogo original como uma adição interessante à jogabilidade. Este género de mini-jogo foi mesmo onde mais me diverti em Yars Rising. Em vez de se limitar a uma mecânica repetitiva, o hacking vai evoluindo ao longo do jogo, introduzindo novos desafios e exigindo cada vez mais destreza. Alguns desafios tornam-se mesmo difíceis e há mesmo uma opção de ativarem temporariamente uma ajuda caso se sintam frustrados com as tentativas. Arrisco a dizer que o hacking mantém o jogador interessado e dá uma sensação de progressão que se encaixa bem na narrativa, apesar de esta ser previsível. O ano é 2049 e somos Emi Kimura, uma jovem hacker que é contratada por um grupo secreto para expor as tramas obscuras da corporação onde trabalha, a QoTech, a evil corporation desta história cyberpunk. E o resto já podem imaginar…

Ambiente e som que cativam
Se a narrativa peca pela falta de originalidade, mesmo que, diga-se a verdade, nunca tente ser mais do que aquilo que é, o mesmo não pode ser dito da banda-sonora. As músicas, com letras que ajudam a contar a história, enriquecem muito a experiência e ajudam a dar um ambiente sonoro muito próprio a cada nível. A música não está lá apenas como pano de fundo; ela complementa a ação e reforça o enredo. Detalhe engraçado: dá para vermos que músicas estão a tocar, pois há a opção de colocar visíveis no ecrã o nome das faixas e artista, como se estivéssemos a ouvir no smartphone da Emi. A arte e o ambiente da cidade, por outro lado, são outro ponto forte. Seja através de pequenos detalhes nas janelas que mostram a cidade lá fora, como a chuva a escorrer contra as luzes néon, ou na maneira os comics que servem de cutscene são apresentados graficamente, há um cuidado notável em criar uma estética cativante apesar de os cenários serem muitas vezes demasiado simples.

imagem: Yars Rising / Atari / WayForward
Lutar com o boss… literalmente.
Apesar de as lutas contra os bosses (e literalmente lutaremos contra alguns dos nossos patrões) não serem particularmente inovadoras, ajudam a quebrar a rotina e a manter o ritmo, proporcionando momentos de tensão necessários para equilibrar a jogabilidade mais parada do restante do jogo. A primeira impressão de que Yars Rising seria um título básico é rapidamente superada, pois este vai aumentando em complexidade e oferece desafios que exigem maior atenção do jogador, tornando a experiência mais gratificante à medida que avançamos. Para isto contribui também o sistema de Biohacks, que não é basicamente um sistema de skills ou melhoramentos de saúde e força, mas essencial para ajudar na progressão e com o qual teremos de jogar um pouco: a certo ponto não será possível ter todos os skills ativos ao mesmo tempo.

imagem: Yars Rising / Atari / WayForward
Falhas que quebram o ritmo
Mas nem tudo é perfeito. Já falei da narrativa que, centrada numa “grande corporação malvada”, é um cliché que não se esforça muito para se destacar do resto. Mas além disso, os comentários constantes da personagem principal acabam por se tornar aborrecidos e demasiado… cringe? Curiosamente, o próprio estúdio parece ter percebido isso e incluiu uma opção para desligar estas falas nas opções, algo que muitos jogadores apreciarão. O texto do que Emi diz continuará a aparecer no ecrã, mas pelo menos a voz já não irá chatear.
Outro ponto negativo é o excesso de loadings, que acabam por quebrar a imersão, especialmente quando se tornam frequentes nos momentos mais intensos ou quando temos que repetir secções. É uma falha técnica que poderia ter sido melhor otimizada, já que interrompe o fluxo do jogo de forma frustrante.
Vale a pena jogar?
Yars Rising pode começar de forma simples, mas tem a capacidade de surpreender ao longo dos níveis. Com uma arte bem trabalhada, uma banda-sonora envolvente e uma jogabilidade que se vai refinando, é um jogo muito competente. Não se reinventa em todos os aspetos, mas faz o suficiente para honrar o seu legado enquanto oferece uma experiência rica para os fãs, que encontrarão no sistema de hacking desafios muito originais e divertidos e ainda o grau suficiente de nostalgia do original.