Doctor Who? Sim, só Doctor!

Há coisas características às quais ligamos logo à Grã-Bretanha – a Rainha, a Adele (às vezes indistinguível da anteriormente mencionada), os filetes de peixe fritos com batatas e talvez, quiçá, o Mourinho no Chelsea United e os The Beatles, mas só mesmo quiçá – que é sempre um bom ponto de demarcação da demais cultura pop ocidental, tão ela populada pelo outro lado do oceano atlântico. Quando damos por ela, nem percebemos o quão influente a Europa e a sua produção de media é para a grande Hollywood e arredores – não haveria um Francis Coppola sem um Charlie Chaplin, e mesmo que seja assim um esticanço no argumento, o que eu quero dizer, por mais que haja uma linguagem popular desvinculada entre os EUA e a Inglaterra desde a época contemporânea, é impossível não a interligar, ou melhor, ver onde as mesmas se interligam.

Quando falamos de ficção cientifica, ou pelo menos, da maneira como hoje a vemos, consumimos e procuramos activamente por ela, o que é que nos vem logo há cabeça? Star Wars? Legítimo, talvez um dos maiores épicos cinematográficos da altura e talvez uma das franquias do género mais influentes mundialmente. 2001 Odisseia no Espaço? A escolha kino, claro, e se ignorarmos o facto de ser o tópico de uma crónica futura, é um dos filmes mais importantes não só da história do cinema, mas também do género. X Files? Stargate SG1? Firefly (sempre que escrevo o nome desta série tenho de limpar uma lágrima do canto do meu olho)? Tudo representantes importantíssimos do grande mythos da sci-fi.

Mas e se eu vos falasse de um monstro inglês, daquele que bebe chá às cinco da tarde, chamado Doctor Who? Pois. Dessa definitivamente… Claro que estavam à espera. Doctor Who tem mais de meio século e é das séries europeias mais influentes de sempre, sem exagero. E dizer série é quase um crime – o universo expandido de Doctor Who engloba comics, livros, audiobooks, radio-novelas, mais spin-offs que dedos de uma só mão – em si só. Doctor Who é literalmente uma das maiores franquias de ficção científica a nível mundial e em termos de espaço temporal a única coisa que consigo imaginar que a combateria seria Star Trek. Ou Star Wars.

Allons-y!

Explicar esta série a quem nunca ouviu falar é um pouco complicado sem dar spoilers tremendos, mas acho que consegui teorizar e por em prática uma hipótese que talvez nos cure desse problema. Doctor Who é sobre um alien que é de partes iguais Indiana Jones, Sherlock Holmes e James Bond, mas dentro de uma cabine telefónica da polícia e com um carisma do caraças. Ênfase no carisma – já vos explico o porquê daqui a pouco. Esse tal alien é conhecido com The Doctor, e nas suas viagens intergalácticas, ele cria um interesse imenso na raça humana e na sua história, mitologia, e desenvolvimento. Em partes iguais, Doctor Who é uma carta de amor à humanidade, não só aos seus pontos altos, mas também aos seus pontos baixos – aos seus sonhos, aspirações, ao passado e ao futuro.

De referenciar que a série é criada na década de 60, onde teve produção continua até ter a sua primeira pausa na década de 90, para ser retomada a 2005 com aquilo que nós chamamos de New Who. Sim, para verem, mais de meio século a seguir a mesma personagem e as suas aventuras! Sim, porque uma pequena pesquisa sobre o Doctor vê-se logo que há mais do que um ator (e uma atriz!) a representarem essa figura mítica da história do sci-fi. O Doctor é um Time Lord – um alien de Gallifrey, com um corpo semelhante ao humano, com dois corações e com uma formação genética que é capaz de aguentar mudanças no espectro tempo-espaço e poder, efectivamente, regenerar-se assim que lhe apraz. É quase como quando se veste a roupa boa de ir sair à noite e a gente torna-se numa pessoa diferente – é o mesmo por dentro, mas por fora é toda uma nova personagem. Ele viaja numa nave espacial, que por fora parece mais pequena do que por dentro (It’s bigger on the inside!) chamada TARDIS, na sua forma de cabine telefónica da polícia britânica, que por si só é talvez a grande iconografia da série. E sim, faz tudo absolutamente sentido, okay? Não perguntem!

Voltando ao Doctor, esta dinâmica que cada performer traz à personagem é uma das receitas de sucesso da franquia – consegue-se muito bem saber que tipo de histórias esperamos quando sabemos que a mesma é escrita na era do décimo ou na era do quarto doutor (e estamos correntemente no décimo terceiro! Imaginem só!), se soubermos minimamente o que eles representam e como eles se movem pelo universo. Este tipo de narrativa não linear permite aos vários escritores e produtores da série criarem um número quase infinito de enredos, porque tal como o universo não tem fim (não me venham com teorias científicas, sou de letras e gosto de romantizar!), vai sempre haver mais um planeta, mais uma raça alienígena, mais um vilão para combater enquanto houver imaginação para tal.

Falar de Doctor Who e não falar sobre os seus companheiros, ou melhor, as suas companheiras porque a esmagadora maioria são mulheres, é esquecer uma parte quase tão importante como as viagens no tempo – a dinâmica entre um ser com séculos e séculos de vida versus um humano que é posto numa posição que muito poucos tiveram: a de explorar o espaço, de viajar no tempo. A franquia introduz-nos personagens humanas que, apesar de quase sempre serem o jovem adulto comum, acabam sempre por terem um papel larger than life – podem ser completamente antagónicas na sua personalidade com o Doctor, e assim criam instâncias onde é mais complicado salvar o dia. Podem ser pessoas importantíssimas posteriormente para o sucesso da humanidade; ou podem ser só a pessoa certa no lugar errado. Todas elas acabam por influenciar a maneira como o Doctor interage com o universo, e o Doctor acaba sempre por ser um momento importante nas suas vidas, criando este mito do A Tall, Dark Stranger que aparece para salvar o mundo, seja ele o físico ou o emocional.

Mas temos de falar também de vilões – dos vários, dos espaçados, dos recorrentes. Doctor Who preza tanto os seus protagonistas e os seus vilões que às vezes até é complicado não querer que os mesmos consigam ganhar… pelo menos uma ou outra vez. Apesar de, claro, o Doctor sair sempre vitorioso (ele não exclama ser Time Lord Victorious por nada, não é), há sempre histórias onde até isso parece impossível. Mas ninguém é invencível, e todos perdemos um pouco às vezes. E é isso que Doctor Who nos tenta dizer.

Doctor Who ensina-nos a crescer, a olhar para as dificuldades e resolver as mesmas, mas também nos ensina a deixar o passado onde ele tem de ficar. Os momentos mais tristes na franquia são sempre os do fim de uma viagem de um companheiro com o Doctor, seja por razões de segurança, seja por motivos metafísicos, ou seja mesmo por medo de um coração partido. Nestes moldes, é rara a personagem que mesmo que seja um final mesmo desejado, não seja um final onde se sinta que a sua história ficou full circle (menos no caso da Donna, mas pronto, isso será uma discussão para outro dia).

Diogo Rivers
Escrito por: Diogo Rivers

Gamer, cinéfilo e crítico nas horas vagas, DJ nas outras horas vagas. Sou conhecido por conseguir meter umas matches de Smash Bros entre congressos e festas, mas a minha paixão é a produção cultural e a sua interligação com a comunidade local que a consome. Vale tudo - de Esports a Poesia.