Fleabag

Fleabag é talvez, para mim, uma das séries dramáticas mais bem escritas e conseguidas de todos os tempos. Embora se insira na categoria de comédia, não vão ao engano, Fleabag não está para brincadeiras.

O que é complicado de explicar em Fleabag é que Waller-Bridge (escritora e atriz principal da série) quebra a “fourth wall” em quase todas as cenas, às vezes em linhas de diálogo únicas. Ora, esta técnica não é algo novo. Estamos habituados a isto, por exemplo, em séries como The Office, no entanto, é a forma como Waller-Bridge utiliza este mecanismo que faz desta série algo genial e que deveria ser estudado por qualquer um que gosta de cinema. Enquanto a primeira temporada de Fleabag usa este “falar para a câmara” como uma maneira de introduzir comentários humorísticos ou falar do passado da personagem, quase como se estivéssemos literalmente dentro da cabeça de Fleabag, e ela não tem papos-na-língua; a segunda parece tornar consciente que esta técnica é um próprio mecanismo de defesa de Fleabag, que aos poucos aprece até ficar desconfortável, pelo facto de lhe estarmos a invadir o pensamento. Conversar com a câmara é uma forma de contar histórias, mas também é Fleabag a tentar se desassociar da sua própria vida, um mecanismo de defesa construído após a morte da amiga. Do ponto de vista de Fleabag, nós somos os personagens fictícios. As suas relações com as pessoas que ama foram aos poucos se desintegrando e, por isso, usa-nos como forma de evitar o trabalho de consertá-las.

Na segunda temporada, o toque de mestre atinge outros níveis quando o novo interesse romântico de Fleabag, um padre, parece começar a notar que ela fala connosco, entrando também nesta “fourth Wall”. Quanto mais Fleabag e o Padre se conectam (com indícios de tensão romântica, apesar de toda a promessa de castidade), mas esta estratégia evolui. O Padre nunca nos vê, mas chega a olhar directamente para a câmara quando nota que Fleabag está a falar connosco.

Fleabag abre a temporada anunciando que estamos a assistir a uma história de amor – e sim, ela e o padre (Andre Scott) têm uma química incrível. Mas a beleza da história é a maneira como ela entende que a coisa mais difícil sobre o amor, às vezes, é perceber que és digno de ser amado.

Para um certo tipo de pessoa, amar alguém é fácil, mas amar a si mesmo é difícil. Esta é a jornada interior e que vemos desenrolar ao longo destas duas temporadas, cada uma melhor do que a outra e vice-versa. Uma série extraordinária sobre perda e o dia-a-dia de alguém em permanente sabotagem por não acreditar que merece ser amada devido ao seu passado. Fleabag é perfeita para se ver num dia de uma vez só e ser consumido pelo génio de Waller-Bridge, pela sua escrita, pela sua performance e por tudo o que aprendemos ao longo dos episódios sobre o mundo e nós mesmos.

Capa
9.5
Fleabag
Incrível
Premiere 21 de julho de 2016 Finale 8 de abril de 2019
Temporada 2
Distribuição por
  • Humor inteligente
  • Experiência intensa
  • Quebra da quarta parede
  • Curta Duração
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.