I May Destroy You

I May Destroy You é sem dúvida o melhor trabalho de Coel, talvez porque está em total controle criativo. Nesta série de 12 partes, Michaela Coel é não só a criadora, escritora e, por vezes, realizadora de I May Destroy You como é também a actriz principal. No papel de Arabella, uma escritora promissora em Londres que luta para terminar o primeiro rascunho, Coel é incisiva, divertida e emocionante de observar.

Michaela Coel tinha 28 anos quando protagonizava Chewing Gum, (que ganhou o prémio BAFTA), sobre uma garota desesperada por perder a virgindade. Enquanto fazia a segunda temporada em 2016, Coel fez uma pausa para se encontrar com um amigo num bar e a história que se desenrola não é muito diferente do que acontece em I May Destroy You.

O primeiro episódio revolve à volta de uma noite de bebedeira e no que poderá ou não ter acontecido. Arabella acorda na manhã seguinte sem se lembrar de como voltou da noite. A sua memória vem em flashes, e as únicas coisas em concreto que têm são o ecrã do telemóvel quebrado e o corte misterioso na testa. Mais tarde naquele dia, ela e a melhor amiga Terry (uma boa performance secundária por Weruche Opia) começam a juntar todas as peças e finalmente chegam à conclusão de que Arabella teve a sua bebida alterada, mas talvez isso não seja o pior que aconteceu naquela noite. Ver I May Destroy You acaba por ser como entrar na consciência de Coel. A maneira como o seu rosto oscila da placidez ao horror e leveza à devastação reflecte a natureza do próprio trauma,

Ao longo dos 12 episódios de meia hora, Coel aborda diversos temas relacionados ao consentimento, atitudes sexuais e raça numa das melhores séries de TV do ano. Embora às vezes seja um pouco desigual na maneira como a narrativa flui, I May Destroy You é clara e deliberadamente desarticulada, e é por isso que funciona. Coel usa as suas próprias experiências de abuso, memórias dolorosas da infância e desgosto para contar uma história que é ao mesmo tempo chocante e familiar para muitas mulheres e alguns homens.

Para além de coragem em abordar uma série de questões, é a maneira como Coel aborda estas mesmas que torna esta série tão especial. A maneira como lidamos com o trauma pode dizer muito sobre todos e cada um de nós, e Coel sabe disso mais do que ninguém. Ela é capaz de descrever tudo com uma precisão surpreendente.

O assunto do consentimento e os seus supostos limites são abordados com uma enorme quantidade de maturidade. Um sub-enredo envolvendo o amigo gay e promíscuo de Arabella Kwame (Paapa Essiedu) abre uma nova discussão sobre assédio sexual de uma outra perspectiva que torna a série ainda mais interessante. O modo como os dois assuntos são abordados, as diferenças no tratamento e na relevância que são dadas quando o género abusado é diferente são alvo a várias reflexões interessantes.

I May Destroy You é uma série que nos deixa a pensar e que acabamos por devorar de uma só vez . É a prova de que Coel não só é uma das pessoas mais inteligentes a trabalhar no meio, mas também que é possuidora de uma visão única do mundo, oferecendo-nos um último episódio absolutamente genial e diferente do que estamos à espera. I May Destroy You é apenas o início do que podemos esperar de Coel, e mal podemos esperar.

Capa
8.5
I May Destroy You
Muito Bom
Premiere 16 de junho de 2020
Temporada 1
Distribuição por
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.