Killing Eve – Temporada 3

Depois de uma primeira temporada incrivelmente bem escrita por Phoebe Waller-Bridge (criadora de Fleabag) e que nos trouxe uma comédia sombria e deliciosamente macabra sobre a relação entre Eve e a assassina Vilanelle, e de uma segunda temporada que nos conseguiu manter apaixonados por estas personagens, chega a terceira temporada. E não é a mesma coisa.

Killing Eve não passou a ser uma série má, mas é completamente diferente no tom daquilo a que nos tínhamos habituado no passado. Embora ainda continue chocante aqui e ali, em grande parte perdeu o elemento de surpresa  e de diferença que a distinguia de todas as outras séries de policiais. O que antes era um thriller cómico, sagaz e sexy, cercado de terror, tornou-se um psicodrama envolto em sentimentalismo. Deixou de ser algo especial para ser algo comum, que se diluiu no meio de tantas outras. A nova normalidade do programa vem de todos os lados. A violência e as mortes não têm o impacto que costumavam ter, parecendo banais e servindo apenas para avançar, muito lentamente, a história.

Depois do cliff-hanger da segunda temporada, não sabíamos o que esperar. E o que finalmente nos dão é algo previsível e decepcionante. A relação entre as personagens principais sempre foi o foco e a alavanca da série, algo que nunca antes visto em televisão, inovador  e excitante. Porém, Eve e Villanelle perdem-se nestes novos episódios. As duas continuam sem conseguir desistir uma do outra, é claro, mas os seus caminhos raramente se cruzam. O que obtemos é uma viagem prolongada e não muito interessante à história de Villanelle, explorando a questão de saber se a sua psicopatia seria uma questão de “nature or nurture”.

A fixação de Eve em Villanelle (e vice-versa) tem sido o pulso de Killing Eve desde o início. Sandra Oh e Jodie Comer mal tiveram que compartilhar a tela para que a sua electricidade estalasse através dela. A nova temporada, no entanto, não favorece Jodie, cuja actuação vencedora do Emmy como Villanelle sempre foi um exercício interessante e difícil de representação, uma colecção altamente qualificada de maneirismos, inflexões vocais e estranheza. O que antes funcionava esplendidamente para um personagem pelo qual devemos estar emocionados e horrorizados simultaneamente, não funciona tão bem para um personagem do qual agora devemos sentir pena. E ainda há, no centro do show, o retrato de Sandra Oh como a comovente, completamente deslocada e hilariante Eve, o elemento indispensável do programa e que parece ter sido abandonada nesta nova temporada.

Nesta temporada, porém, embora o desempenho de Sandra Oh ainda seja emocionante de assistir, ficamos com a sensação de não haver uma evolução, enquanto Jodie Comer recebe todo um conjunto de novas emoções para explorar. Quase parece que Killing Eve, de fato, matou Eve, abrindo caminho para um show em Villanelle que, francamente, tem muito mais energia propulsora, mas que sem Eve fica desequilibrada.

 O que tornou o jogo de gato e rato de Eve e Villanelle tão magnético foi o fato de que ambas compartilhavam um fascínio uma com a outra que ninguém mais poderia rivalizar ou entender. Se Killing Eve quiser voltar a ser o que outrora foi, precisará encontrar esse equilíbrio novamente – ou pelo menos, dar a Eve algo mais interessante para fazer do que ficar à espera de Vilanelle. Ainda assim, é um show que merece ser visto, principalmente os seus primórdios.

Capa
7
Killing Eve
Premiere 2018
Temporada 3
Distribuição por
  • As duas primeiras temporadas
  • Sandra Oh e Jodie Cormer
  • Perdeu o elemento de surpresa  e de diferença
  • Avanço muito lento na história
  • História previsível e decepcionante
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.