Upload

The Good Place não pode ser substituído, na minha opinião é talvez a série de comédia mais subvalorizada dos últimos tempos, e colocou um patamar tão alto que é difícil de ser alcançado de novo. Para mim, o seu valor estabelece-se quando cria um género dentro de um género que outros desde aí têm vindo a tentar imitar, na maioria das vezes sem sucesso. The Good Place com a sua ideia de inferno e céu completamente única, cria, porém, um problema, todas as outras parecem paródias com uma solução banal para o grande mistério do que acontece depois de morrermos.

Upload, a nova série da Amazon, tenta trazer algo diferente ao visualizar o céu não apenas como algo real, mas como algo construído pelo próprio ser humano. Na mais recente série do veterano da TV, Greg Daniels (Simpsons, The Office, Parks and Recreation), existe uma rede de resorts virtuais nos quais alguém pode fazer o upload da sua consciência no momento da sua morte. O paraíso, como tal, espera não pelos puros de coração, mas pelos que o possam pagar. Um desses resorts é Lakeview, onde os moradores desfrutam de luxuosos quartos de hotel e bufets luxuosos três vezes ao dia. Aqueles que não puderem pagar a taxa de inscrição e os dados ilimitados necessários para manter o estilo de vida – ou melhor, o estilo da morte – podem optar por um plano de 2 GB, que quando acaba congela as pessoas até ao próximo mês, uma ideia para mim genial mas pouco explorada. Na realidade, a crítica que se tenta fazer é interessante: até o suposto grande equalizador (mortos seríamos todos iguais) favorece os ricos.

Outra oportunidade também pouco explorada é a ideia de Download (o processo em que a consciência de alguém já morta pode ser reintroduzida num novo corpo criado num laboratório igual ao dessa). Esta ideia, por si só, é muito forte, mas faz apenas um cameo de 5 minutos numa série com 10 episódios. Muitas séries sofrem deste problema, o de acharem que nunca vão ser canceladas. Nenhuma série deve sacrificar boas ideias na esperança de ter tempo para as desenvolver, mais vale criar uma série com mais episódios, mais forte e cortar as cenas que não acrescentam nada. Uma série que explore desde o início tudo o que pode vir a ser, e deixar para segundas e terceiras temporadas algo como as consequências de tudo o que aconteceu, ou o desenvolvimento e a introdução de novas personagens que venham agitar o status quo.

A premissa é interessante, o cenário intrepidamente desenhado, mas precisa de uma história mais forte, e é precisamente aí que a série começa a sofrer. O protagonista é Nathan (Robbie Amell, uma escolha um pouco aborrecida para o papel), que entra para Lakeview pela generosidade da sua namorada rica (Allegra Edwards, excelente a deixar sempre aquela dúvida do gostamos dela ou não) após um acidente de automóvel misterioso. Ele é o típico playboy, mas que afinal tem bom coração e até algo dentro da cabeça, o que é perfeito para a redenção e reforma moral ao estilo de The Good Place pelo seu “anjo” (Andy Allo), uma espécie de assistente técnica da empresa. Aos poucos, os dois vão desenvolvendo um forte vínculo emocional pondo em risco os doidos.

Para introduzir algo mais, a morte de Nathan parece tratar-se de um assassinato. Enquanto estava vivo, Nathan e o seu melhor amigo estariam a desenvolver uma nova forma de pós-vida em que as pessoas desenhariam o seu próprio céu e depois fariam o upload para este e não para um já existente e que pertence a uma grande companhia capitalista. Seria uma forma de trazer mais igualdade porque esta “app” estaria disponível para todos e não para aqueles com dinheiro, mas já percebemos o que isto significa: põe em risco um monopólio muito lucrativo das companhias já existentes, tornando-o um alvo a ser abatido. Os 10 episódios, tentam assim explorar não só Lakeview e a relação de Nathan e o seu anjo, mas também descobrir a causa da sua morte e tudo o que está envolvido. Quando chegamos ao final, porém, percebemos que pouco se avançou na história em relação ao primeiro episódio. O pacote de 2 gigabytes é quase que ignorado, o que é uma pena pois seria a oportunidade perfeita para escrever algo mais interessante e que ligasse mais as duas histórias; e sobre a morte dele pouco mais se descobre do que aquilo que já se desconfiava.

Upload é uma boa tentativa, mas parece que embora a descolagem seja boa, a aterragem nem assim tanto. Tem potencial para ser algo especial, quase de culto, mas precisa de uma boa reviravolta, deixar de lado o aspecto romântico e investir mais na parte tecnológica e na crítica social, deixar de tentar ser a comédia estilo The Good Place e avançar para algo mais dramático ao género de Black Mirror. Talvez não seja esse o objectivo, talvez queira ser apenas uma comédia leve, mas fica a perder.

Capa
6.5
Upload
Satisfatório
Premiere 1 de maio de 2020
Temporada 1
Distribuição por
  • Potencial para ser mais
  • Premissa é interessante
  • Performance de Allegra Edwards
  • Precisa de uma história mais forte
  • Robbie Amell é uma escolha um pouco aborrecida
  • Algumas ideias são pouco exploradas
  • Investir mais na parte tecnológica e na crítica social
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.