Years and Years

O novo drama da BBC One segue a vida de três gerações de uma família de Manchester, os Lyons, de 2019 a 2034. A vida pessoal entrelaçada dos irmãos unidos Stephen, um consultor financeiro e homem de família amoroso; Daniel,  um que  acaba por se envolver num campo de refugiados; Rosie, uma mãe solteira divertida, sem nenhum dos estereótipos que isso implica; e a ativista política Edith. Juntamente com vários filhos e sua avó Muriel, tudo se desenrola num cenário sombrio que esboça o nosso futuro (realisticamente) imaginado. Cada irmão se relaciona com mudanças políticas crescentes de maneiras que pareceriam, em tempos normais, completamente quotidianas.

A premissa proposta por Russel T. Davies (Doctor Who) é simples: imaginar como será o nosso futuro se nada se fizer em relação ao que vivemos na nossa actualidade. Aborda as consequências da inovação tecnológica, da ressurgência da extrema direita, da política corrupta e menos competente, posições de poder ocupadas por pessoas não qualificadas, o Brexit, um segundo mandato de Trump e a ascensão da China. Como Daniel, um dos irmãos diz: Eu costumava ficar entediado com a política. Aqueles eram os dias.

Davies parece capturar o medo e a incerteza de forma a que estes pairem sobre todas os personagens e nos sigam para a cama como um bicho papão que nos sussurra como o amanhã pode ser pior do que o hoje.  Nas pequenas questões do dia-a-dia, Davies introduz caos e empurra-nos para questões mais pesadas e difíceis desde os limites que se deverão colocar à tecnologia, à desigualdade, racismo, preconceito e como o medo se pode tornar uma arma militante. Assustadora é a rapidez com que acontecimentos trágicos e marcantes se tornam história e rapidamente se repetem.

A filha mais velha de Stephen, por exemplo, apresenta-se como “trans”. Ele e sua esposa Celeste com as suas atitudes progressivas reagem positivamente – até que ela explica que não significa transgénero, mas transumano. Ela quer que a sua consciência seja carregada para a nuvem, descartar-se do seu corpo e viver para sempre, digitalmente. Um exercício mental que se pensado bem não parece estar tão longe de ser possível. O que implicaria algo como isto?

Ao mesmo tempo, a amizade de Daniel com Viktor, um dos refugiados ucranianos no campo que ele ajuda a administrar, se transforma num caso de emigração que com a saída do Reino Unida da União Europeia apenas se complica cada vez mais.

A questão-chave do nosso tempo, tão massiva que exige ser dividida em várias menores, é como o indivíduo deve ou mesmo pode reagir ao viver uma mudança cada vez mais rápida. Séries como Westworld”na HBO, que aborda a questão de forma mais alegórica, e Black Mirror que há anos cria histórias em que os protagonistas enfrentam mudanças tecnológicas que têm a capacidade de nos fazer reflectir sobre a nossa realidade, são outros exemplos da mesma premissa.

Years and Years, no entanto, faz algo diferente ao imaginar o futuro para personagens normais e não especiais, fazendo-nos acreditar que poderíamos ser nós; afinal as personagens não são assim tão diferentes de nós.

Ao comprimir 15 anos em seis horas, cada episódio parece passar num piscar de olhos, cheio de compaixão e angústia, deixando-nos desconfortáveis talvez pela ideia desconcertante de que este futuro imaginado não é nada fantasioso ou inacreditável. Uma verdadeira obra de arte contemporânea.

Capa
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Years and Years
Incrível
Premiere 14 de maio de 2019 Finale 18 de junho de 2019
Distribuição por ,
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.