Simplesmente Cosplay 3 – Motivação e objectivos

Quando decidi molhar o pézinho na “cena” do cosplay, queria pôr mãos à obra, mas mal sabia por onde pegar. Algumas ideias eram claras, mas outras pareciam precisar de magia para se tornarem realidade. Então… por onde começar?
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Ainda antes de tentar pôr qualquer ideia em prática, há uma questão importante a fazer: Até onde queremos ir? Qual é o objectivo final? O que nos move? Será a criação do fato? Apenas usá-lo? Queremos algo simples apenas para entrar no espírito do cosplay ou queremos subir a palco e cantar “Let It Go” a plenos pulmões para concurso? Queremos impressionar outros fãs da personagem ou simplesmente sentirmos-nos como uma verdadeira navegante da lua? A resposta determinará o que se espera do fato e da interpretação e, consequentemente, mínimo necessário para que o projecto seja completado de forma satisfatória.
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Se o que pretendemos é simplesmente diversão, então a qualidade do fato e da interpretação são pontos que ficam apenas a nosso critério. Múmia de papel higiénico? Força! Porque não? Sugiro folha tripla para maior resistência e não nos esqueçamos da roupa interior para segurança e conforto. Nós decidimos os limites.

Nathan Nathrakh (@jarlofrivia) de Sole Survivor e Daniel Ramos (@daniel_ramos.foxcosplay) de Courier, ambos do universo de Fallout, living la vida loca no recinto da Lisboa Games Week 2019.

Já quando entramos no mundo da competição, o nível da qualidade exigida será expectavelmente mais elevado. Isso não significa que não nos podemos divertir (pelo contrário), nem implica que temos que ser os maiores lá da aldeia, mas sob holofotes aposto que todos queremos mostrar o nosso melhor. Esta é a nossa oportunidade para mostrarmos as nossas habilidades a um público maior. Sem pressão.
Claro que os concursos não são todos iguais. Uns podem exigir algo na área da interpretação, enquanto outros se focam somente no fato. Uns poderão julgar a construção do fato, enquanto outros podem julgar apenas o aspecto final. Essa é a boa notícia: há variedade. Há concursos para todo o tipo de cosplayers, por isso, se não encaixarmos nos critérios de uma competição, podemos procurar outra onde o nosso trabalho seja devidamente avaliado. De novo, concursos são oportunidades para mostrarmos a nossa arte. O melhor conselho que tenho para dar é preocuparem-se com o que apresentam ao público e com o vosso projecto mais do que com quem ganha no final.

Jojo Venus Neko (@jojo.venus.neko) como Hatsune Miku no palco do Famalicão Extreme Gaming. Foto por PTAnime.

Se por outro lado, o sonho é reinar as redes sociais, mais uma vez, os requisitos serão diferentes. Para tirar algumas fotos, um fato não precisa de ser feito para ser usado um dia inteiro, por exemplo. Aliás, nem sequer precisa de ser feito por nós. No entanto, há muita competição nesse ambiente e não é fácil ter destaque. É um meio completamente diferente, que tem as suas dificuldades, bem como as suas facilidades.
Depois de determinarmos a nossa “meta”, tudo o que resta é delinear o caminho que nos leva do sítio onde estamos ao sítio onde queremos estar. A isso chama-se: plano. O plano é o que em qualquer altura do projecto nos diz onde estamos face às nossas expectativas, se estamos atrasados, se estamos a investir mais do que o esperado, e por aí fora. Criar um plano pode ser simples ou complicado, dependendo do nível de detalhe que lhe dedicamos. Quanto mais detalhado for um plano, mais dificilmente haverá surpresas. Por outro lado, no cosplay é típico usarem-se artes muitos diferentes e, na minha experiência, ainda não houve um fato que não exigisse alguma experimentação ou aprendizagem, coisas que não se sabe quanto vão custar à partida (ou sequer se vão resultar).
No mínimo, um plano deve conter uma lista de todos os materiais necessários e todos os produtos que é necessário adquirir. É basicamente uma lista de compras. Depois, podemos acrescentar tudo o que é preciso fazer com uma estimativa de quanto tempo poderá demorar. Com isto, já devemos ter uma ideia do que será preciso de investir e, assim, já podemos determinar a viabilidade do projecto.

Valerie Rooijackers (@got_to_love_cosplay) como Thresh de League of Legends. Foto e edição de Jhonatan Rangel (@jhon_shots)

A questão seguinte seria: O que estamos dispostos a investir? Não falo apenas na questão financeira, mas também de tempo. Aliás, eles costumam ser cambiáveis até certo ponto, na medida em que investir tempo poderá poupar dinheiro e investir dinheiro poderá poupar tempo. Portanto, podemos pôr de lado a ideia de que é preciso ser filho de pais ricos ou de que é preciso ter muito tempo livre para executar um projecto com qualidade, mas nada vem do nada e pelos menos de motivação irão precisar. Essa é a terceira (e mais importante) roda do triciclo: motivação ou, por outras palavras, a vontade de dar o primeiro passo.
Na verdade, o triciclo tem ainda uma quarta roda, o conhecimento, mas visto que vivemos na era da informação, com motivação e tempo é relativamente fácil obter conhecimento. Por conhecimento, entenda-se técnicas, diagramas, esquemas, etc. Essencialmente, a “receita” para cozinhar a vossa personagem.
Enfim, estes serão os recursos mais importantes à vossa disposição e, se pensarmos bem, isto é verdade para qualquer projecto, não apenas cosplay. Se os recursos necessários encaixarem nos necessários, parabéns! O vosso projecto é “fazível”.
Finalmente, e antes que colem os dedos ou cosam as calças às cortinas (ficariam supreendidos…), tenho um último conselho: Segurança é imperativa. Nada é mais importante que o vosso bem-estar. Comam, bebam, durmam, façam tudo o que têm a fazer na casa-de-banho, leiam todos os manuais das ferramentas, sigam todas as regras de segurança das técnicas que forem usar, relaxem (caso estejam com estado de espírito alterado) e, só no fim, depois de verificar todas as caixas, preocupem-se com o vosso projecto. Imaginem a humilhação de ter que explicar o sucedido na triagem das urgências. “Estava a fazer um fato de sapo espacial e adormeci em cima da super-cola e é por isso que tenho as pálpebras coladas à toalha de mesa e a testa cheia de glitter.”
Poupem-se. Segurança em primeiro lugar.
No fim de contas, temos que nos lembrar que cada pessoa tem ideias, objectivos e habilidades diferentes e cada cosplayer terá o seu estilo. Nenhum é certo ou errado e é isso que leva a que haja tanta variedade não só nas competições, mas no mundo do cosplay em geral.
Concluindo e respondendo à questão inicial (“por onde começar?” para os mais esquecidos), o primeiro passo é planear. Pode ser um diagrama num post-it ou numa aplicação super-avançada para administração de projectos, mas idealmente deve ficar escrito ou desenhado seja onde for.
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Escrito por: Pedro Cruz

"Spawned" em Aveiro no fim do início da década de 90, apreciador de amostras de imaginação e criatividade, artesão de coisas, mestre da fina e ancestral arte da procrastinação e... por hoje já chega. Acabo isto amanhã...