Simplesmente Cosplay 4 – Let’s get ready to rumble!!!

No mundo do cosplay, como no de qualquer outra ocupação, é inevitável a comparação entre obras, mas quando se fala em decidir quem é o melhor cosplayer, a questão só se resolve na arena… quero dizer, no palco. Como de costume, todas as observações são retiradas das minhas próprias experiências e limitadas ao meu ponto de vista.
A comparação
Antes de mais tenho que pôr já de lado o conceito de “melhor cosplayer”. Numa competição onde cada cosplayer se pode apresentar com uma personagem diferente, com níveis de exigência diferentes e aplicando artes diferentes, é praticamente impossível determinar o “melhor” de forma absoluta. É terrivelmente difícil, se não por vezes impossível, mesmo para um júri veterano e versado em várias artes dizer que a costura da Afonsolina é melhor que a bricolage do Jocefrano ou que a actuação do Fabrubal. Isto, já sem contar com as diferentes capacidades financeiras, situações familiares ou disponibilidade de tempo, factores que não deveriam ter relevância se quiséssemos uma competição verdadeiramente justa e baseada apenas nas habilidades.
Enfim, é como comparar laranjas a aviões. O que se pode dizer é “esta laranja, para uma laranja é muito boa” ou “aquele avião, como avião, podia ser melhorzito”. Por ser tão subjectivo e para que seja minimamente possível tomar uma decisão racional, os concursos têm critérios definidos, que podem valorizar certos aspectos mais do que outros. Não quero com isto dizer que os concursos sejam inúteis ou descabidos. Afinal, para um cosplayer é uma forma de ver o seu talento reconhecido, para um evento é uma forma de atrair audiência e para a audiência é uma forma de diversão.
Também não quero com isto dizer que as conquistas não sejam merecidas. Aliás, neste artigo estou a partilhar fotos de algumas laranjas e aviões que realmente marcaram a minha memória enquanto membro da audiência e que foram devidamente premiados pelos seus trabalhos. Não, o que quero dizer com esta conversa toda é que quando vamos a palco devemos deixar o ego em casa. Não ficar no pódio não significa que sejamos maus e ficar em primeiro lugar não significa que sejamos superiores.

Biodanks (@biodanks.cos) “a matar” como Maria do filme Assassin’s Creed. A espectacular participação desta guerreira valeu-lhe o primeiro lugar no concurso de cosplay da Lisboa Games Week 2018. Foto de Rúben Teles (@rubenteles_cosplayph) em colaboração com o PtAnime.

O primeiro passo
Portanto, como deve estar claro, conhecer os critérios de um concurso é importante. Não estar familiarizado com as regras é, do meu ponto de vista, a principal fonte de frustração e sentimentos de injustiça no mundo do cosplay competitivo. Então, o primeiro passo para participar num concurso deve ser ler o regulamento. É de notar que os concursos não são todos iguais e as regras até podem mudar de uma edição para outra. Um concurso pode, por exemplo, exigir que o fato seja construído pelo próprio cosplayer (e é provável que o júri faça questões sobre a construção) e que se façam poses em passerelle ou um “skit” (uma curta apresentação em palco). Há concursos de participação individual e há outros com categoria de grupos. Há até concursos onde o objectivo dos concorrentes é reaproveitar materiais e reduzir custos, mas pode haver outras regras e restrições. Portanto, se o objectivo é participar num concurso, ler bem as regras e compreender os requisitos e critérios é imperativo.
O facto das regras poderem variar tanto de concurso para concurso pode parecer falta de organização, mas é o que dá variedade ao panorama da arte e oportunidades a cosplayers com diferentes gostos e capacidades de se fazerem notar. Por isso, se sentirem que as regras de um concurso vos excluem de alguma forma, como por exemplo não permitindo a participação de personagens originais, genderbend ou outras variantes, não desanimem, porque há sempre outros concursos. Este tipo de limitações podem existir simplesmente devido a falta de capacidade ou recursos dos eventos.

Leonardo Lucas (@leonardo_lucas95) on fire com uma versão personalizada de Salamander Space Marine de Warhammer 40K. Este gigante feito de EVA e muitas horas foi reconhecido com o primeiro lugar na eliminatória portuguesa da International Cosplay League em 2019. Foto de Nelson Rocha (@nelsonrocha1982).

O espírito do concurso
Qual o propósito de um concurso? Será que as competições de futebol masculino movem biliões de euros apenas com base no interesse genuíno de umas dúzias de pessoas em descobrir de uma vez por todas quem brinca melhor com bolas? Não. O futebol, tal como outros desportos e artes de grande visibilidade, tem grandes investimentos porque há um público. Da mesma forma, a motivação por trás da criação de um concurso de cosplay é atrair público. Esse público quer ver fatos, assistir a atuações, estar frente a frente com as suas personagens favoritas ou simplesmente ver algo interessante para contar aos netos. Ora, como concorrentes, o nosso objectivo, mais do que vencer, deve ser garantir que esse público não se arrepende de não estar a jogar Angry Birds. Não vencer pode deixar-nos um pouco em baixo, mas não chega nem perto da dor de ver uma audiência bocejar.
Como deve ser óbvio, podemos e devemos divertir-nos, mas se pusermos a questão do pódio e dos prémios de lado, um concurso de cosplay não é mais do que um espectáculo. Assim, tal como o cosplay é uma forma de arte e, como tal, uma forma de expressão, a nossa performance em palco é como uma conversa entre nós e a audiência. É o sítio onde podemos receber a máxima atenção, mostrar ao mundo o que somos capazes de fazer por aquilo que gostamos e receber a sua apreciação.

Kuro Karen (@kurokaren_cosplay) a criar material para pesadelos como Artorias de Dark Souls. Quem achou piada e até deu uma gargalhada foi quem viu a apresentação vencedora do grupo KuroSisters na eliminatória portuguesa do World Cosplay Summit em 2019. Foto do geek Rúben Teles (@rubenteles_cosplayph).

O descanso do guerreiro
Coraçãozinho ainda a pulsar desenfreado, saltamos para fora do palco com o som dos aplausos a ressoar nos ouvidos. O alívio é imenso, o nervosismo já vai longe. E agora? Agora vem a próxima, claro, mas antes disso é hora de fazer uma retrospectiva e tentar melhorar. Para isso, independentemente do resultado e caso haja oportunidade, acho uma excelente ideia falar com o júri e tentar perceber o que correu bem e, especialmente, o que poderia ter corrido melhor. Pode não ser tão agradável como receber elogios, mas críticas construtivas, ainda mais vindas de mestres reconhecidos, são uma óptima forma de aumentar a qualidade do que fazemos. Outra coisa que não se encontra em mais lado nenhum é o ambiente dos bastidores. Lá fizemos amizades e aprendemos mais sobre o percurso de outros cosplayers. Não digo que não haja uma ou outra pessoa mais competitiva ou mais fechada, mas ainda estou para ter uma má experiência com outro concorrente.
Conclusão (se é que lhe podemos chamar assim)
Resumindo, por um lado, ficar em primeiro ou último não significa que um cosplayer seja “superior” ou “inferior”, por outro, os concursos existem para atrair audiência e convém respeitá-la. Na minha opinião, sem querer desvalorizar os prémios ou a sua conquista, o maior e mais seguro valor da participação num concurso é a oportunidade de subir ao palco e criar uma ligação com um público em geekisse máxima. Se isso é algo que vos desperta interesse, não percam nenhuma oportunidade por medo de “não ser bom suficiente” ou de “não ter hipótese de ganhar”. É verdade que todos queremos vencer, mas trabalhar para merecer os aplausos é meio caminho para merecer o pódio. Por isso, façam o que fizerem, não desistam e dêem o vosso melhor.
Há muito a dizer sobre este mundo e está claro que não entrei em grandes detalhes, mas gostava de conhecer as vossas experiências, os vossos pontos de vista e saber o que merecia mais atenção.
Avatar
Escrito por: Pedro Cruz

"Spawned" em Aveiro no fim do início da década de 90, apreciador de amostras de imaginação e criatividade, artesão de coisas, mestre da fina e ancestral arte da procrastinação e... por hoje já chega. Acabo isto amanhã...