Simplesmente Cosplay 5 – Skits, skits, skits

Entre subir a palcos cada vez maiores e conhecer grandes cosplayers pelo caminho, posso dizer que já tive algumas experiências fantásticas no mundo do cosplay competitivo. No entanto, nenhuma se compara à primeira vez que, juntamente com a Cristina Gomes, pisei o palco da NaniCon.
Numa sala com talvez cem assentos, deviam estar umas cento e cinquenta pessoas. Céus, pareciam mil. O apresentador Nelson de Sousa introduziu-nos, quase como se sussurrasse um segredo, criando expectativa. De repente, das colunas de som piou uma águia, o sinal de que estava na altura de sair da sombra dos bastidores, e, depois, silêncio. O coração batia contra os meus ouvidos. Após uma curta eternidade, chegamos à primeira piada e com ela vieram risos, risinhos e gargalhadas, como uma onda que estivera há demasiado tempo à espera para bater na costa.
O caminho até ali foi divertido, mas desafiante. O que tinha começado como um texto de quinze minutos, teve que caber em três, ao ponto de certas características não poderem ser expressas em palavras, apenas movimentos. Sora, a personagem interpretada pela Cristina, combatia de forma metódica e precisa, devido à sua educação rígida. Robin, a minha personagem, era filho das ruas, mais manhoso e disposto a arriscar. Apesar de serem personagens apenas levemente inspiradas no mundo de Assassin’s Creed, a audiência bebia todas as referências e graçolas e, em troca, pagava-nos em aplausos, alegria e a ocasional exclamação.

Eu (@fablefoxweaver) e a minha melhor metade, Cristina Gomes (@cristinasleather), com personagens originais inspiradas nos jogos de Assassin’s Creed. Hey, este é o 5º artigo… Já estava na hora de um pouco de auto-promoção. Foto do PtAnime tirada por Ginger7w (@ginger7w.photography) durante o concurso de cosplay da NaniCon, em Braga.

O calor que sentimos daquela plateia era quase tão palpável como o dos holofotes. Com aquela audiência cheia de geeks, foi como ter uma conversa com uma daquelas raras pessoas que simplesmente nos compreendem. Muitos de vós podem até já ter ido a palco e sabem bem que é difícil bater a primeira vez, mas o meu objectivo com este texto é ajudar a criar aquela ligação com quem nos está a ver.
Notem que não sou perito em artes de palco. Tudo o que descrevo neste artigo vem da minha experiência como cosplayer, como membro da audiência e de júri.
Em primeiro lugar: O que é um “skit”? Essa é fácil. É uma apresentação em palco. Geralmente tem limite de tempo e outras restrições, mas tudo isso deve estar descrito no regulamento do concurso, que irá variar de evento para evento.

Ler mais sobre concursos: Simplesmente Cosplay 4 – Let’s get ready to rumble!!!

Tendo tirado essa pedra do caminho, vou dizer duas coisas aparentemente contraditórias e caberá a cada um encontrar o equilíbrio entre elas. A primeira é que se temos interesse em subir ao palco e mostrar o nosso trabalho não devemos deixar de o fazer por medo. Acreditem que compreendo isso muito bem. Ainda hoje me dá um nó na barriga só de pensar nos holofotes.
A segunda é que não nos devemos esquecer que ao subir ao palco estamos a receber uma oportunidade de transmitir e expressar algo e é da nossa responsabilidade respeitar quem está a assistir. Ou seja, não ter medo, mas também não ir de ânimo leve.
E agora, o momento esperado: a receita para o skit perfeito!

Eu (@fablefoxweaver) e a Cristina (@cristinasleather) no palco da Lisboa Games Week 2019 como Harley Quinn e Joker, inspirados nos universos da DC Comics. Foto tirada por André Rodrigues (@aka.noti) para o PtAnime.

Não existe. Felizmente, temos liberdade suficiente para termos variedade. Um skit dramático terá um ritmo diferente de um skit cómico, tal como um skit musical terá características diferentes de um skit assim mais virado para o drama. Mesmo duas pessoas interpretando a mesma personagem irão fazê-lo de forma diferente. Não há um certo ou um errado. Ainda assim, vou dar algumas dicas que acho serem aplicáveis de uma forma geral.
O tempo
Só porque se pede um skit de “até 3 minutos” não significa que tenhamos que usar todos os 180 segundos. Se fizemos tudo o que tínhamos a fazer e mostrámos tudo o que tínhamos a mostrar, alongar a apresentação poderá torná-la aborrecida. Uma apresentação é como sumo. Não se serve num copo de shot, mas diluir em demasiada água vai deixar o sumo sem graça. Por outro lado, se a nossa história não consegue ser contada dentro do tempo limite, apressar pode torná-la confusa (quem nunca experimentou beber concentrado Sunquick directo da garrafa?).
Convém também lembrar (porque é fácil esquecer) que o tempo em palco é “distorcido”. Quero dizer, com a adrenalina, parece passar mais devagar. Mesmo que ensaiemos bem, é fácil perder o controlo e parecermos uns coelhinhos da Duracell. Para isso, o uso de gravações de áudio pode ajudar. Por exemplo, no skit de que falei inicialmente, usámos sons de pássaros para perceber a passagem do tempo.
O conteúdo
O objectivo principal do skit é apresentar o nosso trabalho, mas devemos ser capazes de entreter tanto fãs hardcore das personagens como pessoas que nunca ouviram falar de cosplay ou não conhecem quem estamos a interpretar, que muitas vezes representam a maioria.
Piadas que apenas fãs conseguem perceber podem existir, claro (somos livres! yey!), mas convém ter noção que parte da audiência pode ficar perdida. Tal como num filme, tudo aquilo que queremos que a audiência saiba deve estar na nossa obra. Se precisamos dos comentários do realizador para perceber o que está a acontecer, algo não está bem. Uma boa estratégia é imaginar que as nossas personagens são originais, isto é, que foram criadas por nós, assumir que ninguém as conhece e começar a partir daí.
Fica a dica: peçam a alguém em quem confiam e que não está por dentro do assunto para ver e dar a sua opinião. Assim ficam a perceber o que pode ou não ser confuso ou incompreensível para o comum mortal.
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Escrito por: Pedro Cruz

"Spawned" em Aveiro no fim do início da década de 90, apreciador de amostras de imaginação e criatividade, artesão de coisas, mestre da fina e ancestral arte da procrastinação e... por hoje já chega. Acabo isto amanhã...