Simplesmente Cosplay 7 – Planear, planear, planear
Publicado a 04 Fev, 2021

Há projectos de cosplay relativamente simples, mas também existem bem complexos. A construção de um fato ou acessório pode levar meses e é fácil esquecer detalhes, perder a noção das horas e gastar mais do que o orçamento inicial permitia.

Fazer um plano não só poderá ter um impacto na qualidade final, como poderá poupar tempo, recursos e dores de cabeça. Por isso, a minha melhor sugestão é listar, desenhar e descrever tudo. Aliás, escrever como se estivéssemos a escrever para outra pessoa, porque há uma boa hipótese dessa pessoa sermos nós, meses mais tarde, depois de já nos termos esquecido de algumas coisas.

ptarachnid (@ptarachnid) como Homem-Aranha (Peter Parker). Foto de Nuno Gomes (@nunophotogomes).

Aproveito para lembrar que este artigo é escrito a partir do meu ponto de vista. Pessoas diferentes têm formas diferentes de se organizar e cada um pode e deve encontrar a sua.

Assim, apesar de não ser uma ciência exata, irei tentar dividir o meu processo de planeamento por passos, numa espécie de receita, e apresentar um exemplo mais ou menos simples. Convém notar que este é um processo iterativo, ou seja, avançamos, aprendemos, voltamos atrás e melhoramos.

Então, como fazer um plano?

Passo 1 – Objectivos: Listar os requisitos, ou seja aquilo que se espera do fato e/ou da actuação.

Passo 2 – Pesquisa: Procurar na “net”, ler livros de instrução, perguntar a outras pessoas, entre outros. Essencialmente procurar tudo o que possa ser de interesse, desde imagens de referência de todos os ângulos relevantes a técnicas de construção. Esta é a fase para perceber que materiais e habilidades serão precisos e quanto tempo cada parte poderá demorar.

Passo 3 – Experimentação: Se é para fazer coisas que nunca fizemos antes, convém testar primeiro. Antes de encomendar 10 metros de espuma para criar um Transformer, convém saber o que se está a fazer. Que tal experimentar primeiro e ver se as técnicas funcionam em pequenas amostras antes de desembolsar uma pipa de massa?

Passo 4 – Análise: Esta é a parte da retrospetiva. Aqui avaliamos o nosso plano. O importante a avaliar é o nosso grau de confiança. Caso seja satisfatório, avançamos para a criação. Caso contrário, voltamos ao primeiro passo. Isto parece algo bastante metódico e matemático, mas como é óbvio podemos paralelizar. Isto é apenas um guia.

No exemplo que se segue, irei imaginar que quero fazer cosplay de Homem-Aranha, partindo do princípio que quero fazer o fato. De notar que isto é um caso hipotético. Nunca fiz o fato que irei descrever e os valores, processos e situações mencionados são inventados para os propósitos do exemplo. Não usei um caso real de uma das personagens que fiz, porque sinto que nenhum deles daria para ilustrar o método de forma simples e abrangente. O objetivo aqui é apenas ilustrar o processo e não mostrar como fazer esta personagem em particular.

Pedro (@prop_mann01) como Homem-Aranha Noir. Foto tirada pelo próprio e editada por mim.

Então, ‘bora lá.

1 – Objectivos: Quero vestir-me de Homem-Aranha e quero fazer o fato.

2 – Pesquisa: A minha pesquisa revela que a personagem tem uma máscara (duh) e o fato requer conhecimentos de costura (sim, vou entrar nestes detalhes, tenham paciência). Reparo também que a personagem faz acrobacias e acho isso interessante, apesar de não ter esse tipo de habilidades.

Neste momento o meu plano contém:

  • Aprender a costurar (vou dedicar uma tarde para experimentar);
  • Pesquisar como fazer a máscara (ainda não sei quanto tempo demora);
  • Tentar aprender algumas acrobacias (um par de horas).

3 – Experimentação:

  • Experimento costura e não gosto. Não é a minha “cena”. Talvez consiga fazer a máscara, mas não tenho interesse em fazer o fato completo. Decido procurar fatos já feitos.
  • Desenho a máscara. Em teoria funciona. Ótimo.
  • Começo a praticar cambalhotas (com segurança) e acho que posso vir a ter jeito para a coisa.

4 – Análise: Está tudo muito em aberto, as estimativas de tempo são vagas, não há ideia nenhuma dos custos e há grande risco de várias partes não chegarem a bom porto. Está incompleto. Volto ao passo 1.

Nuno Vieira (@nunov2) como o Homem-Aranha (Miles Morales). Foto de André Ratola (@ratolagamer).

1 – Objectivos: Quero vestir-me de Homem-Aranha e quero fazer a máscara. Na parte da actuação, quero saber fazer cambalhotas devidamente, possivelmente para um skit.

2 – Pesquisa: Procuro lojas que vendam o fato e encontro um artesão que o pode fazer por mim, incluindo o calçado (algo de que me tinha esquecido inicialmente). Procuro todos os materiais que preciso para criar a máscara. Vejo vídeos com as acrobacias e poses do Homem-Aranha e procuro mais informações junto de profissionais de desporto para aprender a executá-las de forma segura.

Neste momento o meu plano contém:

  • Fato (demora 15 dias a ser produzido e enviado pelo artesão e irá custar um total de 30€);
  • Fazer a máscara (2 dias e 10€ em materiais);
  • Aprimorar acrobacias (30 dias de prática deverão ser suficientes para o meu objetivo, o que não me impede de continuar além disso);
  • Aprender algumas poses básicas da personagem (1 hora).

3 – Experimentação:

  • Faço uma versão rápida da máscara só para ver se consigo e fico satisfeito com o resultado;
  • Falta experimentar o fato para ter certeza que serve, mas dependo de terceiros.

4 – Análise: Ainda há possibilidade de falhas, mas sei que o custo total irá rondar os 40€, só ao fim de 15 dias terei o fato completo e só ao fim de 30 devo estar satisfeito com a minha interpretação da personagem. Assim, a informação que tenho dá-me confiança suficiente para avançar com encomendas e execução.

O plano em si pode ser mais ou menos detalhado e deverá ser organizado como cada um achar mais agradável e nada no impede de o revisitar e rever mais tarde. De qualquer forma, o importante é ganhar confiança e não começar o projeto sem qualquer noção da possibilidade de o terminar, principalmente quando há uma data limite em mente. Neste exemplo, se quisesse apresentar-me em cosplay dentro de 5 dias, não seria viável. Parece matemática básica, mas muitas vezes os planos falham precisamente neste ponto. Aliás, no que toca a estimativas de tempo, convém lembrar: melhor jogar pelo seguro e ser pessimista. Apressar projetos tem uma forte tendência para afetar a qualidade e, no limite extremo, pode mesmo afetar a nossa vida pessoal.

Debnise (@debnise) como Silk (à esquerda) e Spider-Gwen (à direita). Fotos e edição pela própria.

Além disso, sem pesquisar e experimentar durante o planeamento, as decisões irão ser tomadas mais tarde, já durante a construção. Aí poderá ser demasiado tarde, poderemos desperdiçar materiais (neste exemplo teria sido o tecido do fato) e deixar escapar detalhes que poderiam acrescentar valor (neste caso, o calçado, as acrobacias e as poses).

Indo mais longe, imaginemos, neste exemplo, que tinha um orçamento inicial de 20€ que seria suficiente se o fato fosse feito por mim. Se já tivesse avançado com a máscara antes de saber que não gostava nada de costura, esse investimento seria desperdiçado ou ficaria numa posição de me forçar a fazer algo que não me dava prazer.

Por fim, quero só acrescentar uma grande vantagem do planeamento: a otimização.

O que costumo fazer após ter o plano feito é listar as várias tarefas que tenho pela frente em detalhe e organizá-las de forma a poupar tempo. Assim, se tiver que cortar tecido para várias partes do fato, corto todas de uma vez, arrumo os restos e mantenho a mesa limpa. Muitas vezes as tarefas são tão pequenas que não justifica o esforço, mas em projetos com técnicas mais complexas podemos poupar muito “overhead”. Este overhead seria o tempo que perdemos a desarrumar, arrumar e limpar ferramentas, desembalar materiais, preparar processos, entre outros. As poupanças serão mínimas, mas somadas poderão facilmente chegar a algumas horas ganhas no fim do projeto concluído.

Concluindo, planear é o primeiro passo para o sucesso e é tão mais importante quanto mais complexo for o projeto. Informação é valiosa e poderá poupar muito tempo e dinheiro, por isso é bom procurar, aprender e ouvir o que a malta mais experiente tem a dizer (a menos que queiramos “investir” a reinventar a roda). Há uma comunidade fantástica de cosplayers portugueses (e mesmo estrangeiros) que, particularmente nas redes sociais, todos os dias partilha dicas e dúvidas.

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Escrito por:
Pedro Cruz
"Spawned" em Aveiro no fim do início da década de 90, apreciador de amostras de imaginação e criatividade, artesão de coisas, mestre da fina e ancestral arte da procrastinação e... por hoje já chega. Acabo isto amanhã...