Música de Jogos é Música, Não se Enganem.

Não sei se todos tiveram esta partilha, mas lembro-me de quando a internet, no meio da primeira década deste século, era um poço de fansites. Eu, pequeno nerdzão de 13, 14 anos, sem grande acesso aos mesmos em casa, usava furiosamente a internet da secundária para estar a par das coisas que mais me interessavam na altura: videojogos. Principalmente japoneses. E mais, era a busca intensiva pelos links de download das bandas sonoras dos mesmos dos quais gostava.

Como sempre fui uma pessoa que se estimulava visual e sonoramente, o meu mp3 (lembram-se? Porra, não passou assim TANTO tempo…) estava cheio de aberturas, temas de batalha, rendições orquestrais, remixes, entre outros artefactos musicais que alimentavam a fome de querer mais, mais, mais… Até porque não dava para levar a PS2 para a escola, e sabe Deus arriscar a tirar a PSP ou a DS da mochila sem ser para trocar Pokemons com o pessoal ou dar umas porradas no Tekken 5: Dark Ressurection a quem ainda não sabia bloquear golpes no mesmo.

Esses fansites eram quase um templo, não é verdade? Aquele media player de fundo a dar aquela música daquele trailer, as informações super detalhadas sobre onde conseguir aquele tesouro escondido, a comunidade toda por trás dos mesmos. São relíquias online que agora se manifestam em outras plataformas –  graças a quem inventou o Youtube, o Reddit, ou outros métodos de streaming. Existe quase um sabor amargo quando se vê esses sites a desaparecerem da rede de acessos dos geeks da altura em favor da maior facilidade de acesso a conteúdo que para nós, na altura, já era uma dádiva, principalmente para quem vivia a centenas de quilómetros de grandes superfícies, ou para quem não tinha um grupo de amigos com quem partilhar este gosto.

Como disse, sempre fui uma pessoa que se estimulava sonoramente. Aprendi música desde pequeno e o meu interesse sempre cresceu com o tempo. Nas aulas de guitarra passava imenso tempo com o meu professor a recriar de ouvido alguns dos temas de filmes e jogos que a gente jogava e gostava, e isso foi muito importante não só para respeitar ainda mais o trabalho destes compositores, mas também para a minha formatura enquanto pessoa que gosta de arte – o que entrou em conflito quando entrei na faculdade.

Não nos podemos enganar sobre estas questões. Quando estudas cultura contemporânea, principalmente arte, e deparas-te com o estado da crítica e análise da mesma, percebes que há artes que pesam mais que outras. No que diz respeito a bandas sonoras, ou a música em geral, a “grande música” é sempre a mais levada a sério. Talvez nós, mundanos, olhamos para Yoko Shimomura e para o John Williams com os mesmos olhos fantasiados e cheios de nostalgia, mas os grandes críticos vão olhar apenas para um destes nomes. Adivinhem qual!

Tive inúmeras discussões com professores sobre o porquê de, quando falamos na intersecção das artes, da sua faceta multidisciplinar, raramente falamos de jogos, quando sabemos perfeitamente que é tão multidisciplinar como o cinema – a junção de vários diálogos artísticos que se interligam numa obra final que tem, dependendo da percepção de quem mantém contacto, um grande peso estético. Lembro-me perfeitamente de por par a par a Imperial March de Star Wars e o World 1-1 Theme do Super Mario Bros. São os dois imediatamente reconhecíveis – é impossível negar o impacto que os mesmos tiveram para a cultura Pop, e mesmo assim não os olhamos da mesma forma.

Lembro-me perfeitamente de meter o Kingdom Hearts II pela primeira vez na PS2 e ouvir o Dearly Beloved e pensar para mim… Que som do caraças. E se pegarmos apenas por aqui, temos imensos temas que de certeza que fizeram parte das bandas sonoras diárias da grande maioria de nós. Sanctuary, Simple and Clean, os arranjos da Yoko Shimomura. Eu estou a escrever isto e na minha cabeça a melodia está aos altos berros. E não precisamos de ficar só nos JRPGs. Os temas dos Elder Scrolls, principalmente do Skyrim, aquelas orquestrações, aqueles crescendos… Gente, a banda sonora do Jak and Daxter, Rayman, Ratchet & Clank, Sly Cooper, God of War, entre tantos outros… Negar a sua importância enquanto marcos incontornáveis não só da música enquanto braço da obra, mas também da musica contemporânea, é desonesto. Desonesto e inútil.

Parece que até há muito pouco tempo não se falava muito de bandas sonoras de jogos no campo mais livre da análise e crítica – os blogs. E é engraçado como a ressurreição do Minecraft fez com que esses bloggers de música underground, contemporânea, entre outros, pegassem na sua banda sonora e a ouvissem com os mesmos ouvidos. A banda sonora dessa obra prima (por mais que queiram ser haters, gente) é dos melhores álbuns de musica ambiente dos últimos anos. Isto é um dos pontos altos do estado de arte, meu pessoal. É talvez a maior porta aberta que temos para ouvir, analisar e criticar a musica feita para esta nossa cultura amada de uma maneira com pés e cabeça. E mais, o que o Mick Gordon fez com a banda sonora do Doom é, e desculpem o termo, o sonho molhado de quem gosta de horror, camp, e metal. Não se consegue ignorar como vanguardas de nicho se ligam. Há um claro gosto e adoração de ambos os lados da moeda.

Vejam também o caso do Distant Worlds (epá, é assim. Eu gosto muito de Final Fantasy. Deixem-me). Estamos, de momento a cinco compilações orquestradas dos grandes temas de Nobuo Uematsu, esse colosso de compositor, e de outros temas de outros compositores da franquia, com imensos concertos à volta do mundo. Olhem também para Zelda, para Mario (lembram-se do número musical no lançamento do Mario Odyssey nas ruas de Nova Iorque?), e para a quantidade de concertos e de músicos ocidentais a participarem directamente na produção e composição de bandas sonoras? É cada vez mais frequente… e ainda bem!

No meu caso, como instrumentista amador, ver outros instrumentistas a pegarem nos grandes clássicos da cultura e fazerem as suas próprias rendições será sempre uma experiência audível muito gratificante. Quem nunca passou horas e horas a ouvir covers de guitarra no Youtube? Não se enganem. Até a cultura do sampling, principalmente no hiphop, na EDM, no noise é amplamente aberta a pequenos bits and pieces de várias OSTs, e há muitos DJs e produtores que se dedicam a fazer sets baseados nos mesmos bits and pieces.

Atenção, o propósito deste pensamento continuo não é enumerar as melhores, ou as piores, ou quantas há ou não há a entrar na esfera da musica contemporânea, mas sim como alguém que gosta tanto da arte vê como exemplos mais ou menos óbvios. Se querem um exemplo mesmo concreto de onde o pop e a composição para videojogos se interligam, olhem para este caso mais ou menos recente: a Coeur de Pirate, artista canadiana deliberadamente pop, fez a brilhante banda sonora para um dos meus jogos favoritos da década passada – Child of Light. E mais não digo.

Música de videojogos é música contemporânea, e pelo menos, devia e deve ser tratada como tal. Se ela mergulhou nas nossas playlists diárias, se ela entra nas contagens de audições ao final do ano, deve ser vista, tratada, criticada e apreciada como qualquer outra forma de criação musical, e mais, deve-se encorajar cada vez mais uma audição mais detalhada da mesma. Além disso, como referido, nada disto é novo, mas vale a pena sempre recordar.

Agora ponham a banda sonora do Animal Crossing a dar e relaxem, que eu vou transcender a ouvir (outra vez…) a BFG Division.

Diogo Rivers
Escrito por: Diogo Rivers

Gamer, cinéfilo e crítico nas horas vagas, DJ nas outras horas vagas. Sou conhecido por conseguir meter umas matches de Smash Bros entre congressos e festas, mas a minha paixão é a produção cultural e a sua interligação com a comunidade local que a consome. Vale tudo - de Esports a Poesia.