Pokémon Go e Covid-19: Poderemos jogar sem o apanharmos todos?

Quando surgiu o Covid, esse novo vírus poderia facilmente ser confundido com um novo pokémon. Era mais um bicho estranho vindo ali dos lados da Ásia. Entretanto ficámos (porque tivemos que ficar) mais familiarizados com ele, até porque, tal como um Snorlax a dormir no meio da estrada, esse bicho veio para ficar durante uns tempos.
Foi durante a pandemia, mais especificamente em Maio, que decidi começar a jogar o Pokémon Go. “Mas seu palerma”, dizem vocês, “o Pokémon Go é um jogo desenhado especificamente para te tirar de casa e esta é a altura em que devias fazer o contrário”. Ao que eu respondo “pois, vocês têm muita razão, mas… talvez dê para jogar em casa”. Será? Vamos ver. Neste artigo quero falar-vos sobre esta minha experiência.
Em primeiro lugar, ao ligar a app, tinha o GPS desligado, pelo que ela simplesmente não funcionou correctamente. “És um tótó!”, exclamam vocês e eu respondo “certo”. Apesar da ausência de um erro ou outra informação útil, lá consegui, com umas pancadinhas carinhosas, pôr a coisa a funcionar. Nesse momento, notei também a falta de tutoriais e percebi uma coisa: este jogo foi feito para começar a jogar com amigos, ambiente no qual não seria preciso instruções, porque teria alguém ao meu lado a explicar tudo o que precisaria de saber. Umas coisas lá fui percebendo, outras o tio Google ajudou e aos poucos fui-me tornando “mais que perfeito, melhor do que a imaginação”. Agora, vamos ao que interessa, o “andar por toda a parte, pelos quatro cantos da Terra”.
Bem, a verdade é que o jogo funciona de maneira diferente para diferentes pessoas. Quem vive em centros urbanos terá maior probabilidade de apanhar pokémons, girar pokéstops ou mesmo combater em ginásios sem sair de casa. É de notar que aparecem mais pokémons na cidade do que no campo, o que apesar de ser estranho do ponto de vista dos monstrinhos de bolso, faz todo o sentido do ponto de vista da app. Eles aparecem onde há mais jogadores, o que significa que o objectivo era tirar a malta de casa… mas não muito longe. Por outro lado, quem vive nas periferias ou mesmo em zonas rurais, está feito ao bife. Ou estará? Talvez não. A verdade é que esses jogadores sempre estiveram um pouco isolados e, com as novas medidas, talvez o jogo seja mais justo.
Ao longo destes meses de confinamento tenho visto alterações na aplicação e lentamente (muito lentamente), ela tem facilitado a vida a quem prefere não correr riscos. Já agora, aproveito para deixar a mensagem da praxe: nenhum Pikachu vale os nossos pulmões, a nossa vida ou a vida de outros, mesmo que tenha um chapéu muito fofo.
“Deixa-te de tretas”, apressam-me vocês, cheios de curiosidade, “Como é que o jogo tem evoluído?”. Bem, para começar, há um item no jogo chamado “incenso” que permite atrair pokémons à nossa localização e o seu efeito e duração têm estado temporariamente amplificados. No entanto, para obter esse item em quantidade suficiente para jogar de forma regular são necessárias PokéCoins, que são apenas obtidas investindo dinheiro real ou saindo de casa e indo até aos ginásios.
Desde que comecei a jogar também notei que a Liga, que pelos vistos antes exigia que os jogadores caminhassem alguns quilómetros para poderem combater, neste momento não tem esse limite e os jogadores podem fazer até 25 batalhas por dia sem saírem do sofá. O que me parece um número razoável. Muito sinceramente, costumo aborrecer-me antes de chegar a esse valor. No fim de contas, as batalhas no Pokémon Go não são tão entusiasmantes ou estimulantes como nos jogos das consolas, mas para quem quer “apanhá-los todos”, é sem dúvida uma boa ferramenta e completamente gratuita.
Há outras pequenas alterações como o número de prendas que é possível acumular, enviar e receber, mas uma alteração recente e bastante relevante é a introdução de balões da Team Rocket, os vilões do jogo. Como esses balões ocasionalmente pairam sobre nós, temos oportunidade de combater o mal sem ter que o procurar e, melhor ainda, dá-nos oportunidade de apanhar mais pokémons. No fundo, é uma funcionalidade que até torna o jogo mais justo para jogadores de diferentes zonas, visto que não depende de estarmos próximos de pokéstops. Às vezes, esses balões até trazem duas personagens queridas do anime, a Jessie e o James, e oferecem o dobro das batalhas (e das recompensas).
Outro tópico de interesse foi o Go Fest 2020, que este ano foi possível participar sem sair de casa. No entanto o acesso a esse evento requeria um bilhete cujo custo em dinheiro real rivaliza o de eventos físicos como o Iberanime ou a Lisboa Games Week. Na minha opinião, poderá ser um valor um pouco elevado demais para o bolso do comum mortal. Mais, nestes poucos meses e principalmente com tantas alterações no jogo, tenho sentido que a aplicação está um pouco instável, com bastantes bugs (sinceramente, não sei se foi sempre assim). A questão é que ficaria de pé atrás quanto a investir grandes somas de dinheiro real nesta aplicação, até porque, na minha experiência, o suporte é tão útil como um Magikarp em terra (o que, traduzindo para os não-geeks, significa que é perfeitamente inútil).
Resumindo e concluindo, o Pokémon Go é jogável em tempos de pandemia? Sim, mas não a 100%. O jogo minimiza a necessidade de sair de casa, mas não a elimina por completo, mantendo-se fiel à sua missão, que é puxar as pessoas para fora. Podemos apanhá-los todos? Provavelmente não, mas dá para entreter numa altura em todo o entretenimento parece pouco. Pokémon Go é o nosso grande amigo neste mundo que está em perigo? É certamente um amigo que tem ficado mais justo para quem vive em zonas isoladas, mas que neste momento está tão estável e confiável como um Psyduck.
Para finalizar, o meu conselho é não sair de casa só para jogar isto. Não vale o risco. Dito isso, se andarem a apanhar pokémons enquanto saem para ir às compras ou para outra atividade claramente essencial, não se esqueçam de desinfectar também o telemóvel (com cuidado para não o estragar), além de, claro, lavarem bem as mãos, usarem máscara, manterem a distância (especialmente das Jynx) e cumprimentarem à Mr. Mime.
E vocês? Que alterações acharam mais relevantes?
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Escrito por: Pedro Cruz

"Spawned" em Aveiro no fim do início da década de 90, apreciador de amostras de imaginação e criatividade, artesão de coisas, mestre da fina e ancestral arte da procrastinação e... por hoje já chega. Acabo isto amanhã...